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A dinastia dos Turckheim no tempo de Goethe

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    Primeiro Discípulo
  • há 2 dias
  • 22 min de leitura

O texto que se segue nos traz uma valiosa incursão no universo intelectual e espiritual da Europa do século XVIII, conduzida pela erudição de Roland Edighoffer (notável estudioso francês especializado em germanística e história das correntes esotéricas europeias) . Ao entrelaçar a trajetória da família Turckheim com a vida e a obra de Johann Wolfgang von Goethe, Edighoffer revela um cenário denso em tensões religiosas, aspirações espirituais e refinamento cultural, no qual experiências individuais e correntes de pensamento se iluminam mutuamente.


O que temos em mãos aqui é mais que um estudo histórico, trata-se de uma chave interpretativa que permite compreender o ambiente em que floresceram importantes correntes do cristianismo "interior" e da maçonaria continental, especialmente aquelas associadas à obra de Jean-Baptiste Willermoz. Nesse sentido, o texto apresentado não apenas reconstrói um contexto, mas oferece ao leitor contemporâneo - em especial aos irmãos do Regime Escocês Retificado - uma via de acesso privilegiada às raízes espirituais, morais e simbólicas que sustentam essa tradição.



A dinastia dos Turckheim no tempo de Goethe  

Roland Edighoffer  



Introdução: Poesia e verdade  


O drama intitulado Stella, redigido na primavera do ano de 1775, reflete a vida sentimental tumultuosa do jovem Goethe, sua necessidade de viver fora das normas éticas de sua época, e ao mesmo tempo o desejo de confessar sua originalidade. Imagina-se facilmente o efeito que pôde produzir, em particular, o desfecho desta peça em sua versão primeira sobre muitos dos contemporâneos de Goethe. O volúvel Fernando, que acaba de reencontrar reunidas sua esposa Cécile e sua amante Stella, não consegue decidir-se a deixar uma pela outra, e as últimas réplicas da peça são as seguintes:


« Fernando (envolvendo-as ambas). — Tu és minha! minha!

Stella (apoderando-se de sua mão e pendurando-se nele). — Eu sou tua!

Cécile (tomando sua mão e pendurando-se em seu pescoço). — Nós somos tuas! »[1].


Embora o suábio Wieland, educado na prática pietista, assim como Sophie von Laroche, ex-noiva de Wieland, ou ainda o pregador luterano Herder não tenham considerado condenável essa evocação de um « ménage à trois », outros a julgaram imoral. O renano Fritz Jacobi, que Goethe considerava « espiritualista demais » [2], opôs à « bigamia » sugerida no desfecho de Stella sua própria visão das coisas em Freundschaft und Liebe (1777), depois em seu romance intitulado Woldemar (1779), no qual o herói, cuja esposa é perfeita, mantém com outra mulher uma ligação certamente platônica, mas que provoca nessas três pessoas um verdadeiro caso de consciência. A solução preconizada por Jacobi é a renúncia à ditadura do coração.


Em um público mais amplo, a desaprovação de Stella provocou, já em 1776, a publicação de obras paródicas « talvez edificantes, mas com certeza de uma platitude e de uma puerilidade aflitivas », a saber, um sexto ato moralizador acrescentado a Stella pelo pastor Franger e uma Stella Nummer Zwei, que acrescentavam à obra de Goethe uma conclusão conforme à ética social tradicional.[3]


Muitos anos mais tarde, Goethe, tornado « o Sábio de Weimar », admitiu que não podia manter a conclusão de seu drama de juventude Stella. Em suas Notas sobre o teatro, redigidas em 1815, ele relata, com efeito, que Stella foi representada em 15 de janeiro de 1806 com um novo desfecho: « Segundo nossos costumes », explica então, « que se fundamentam na monogamia, não era possível representar as relações de um homem com duas mulheres diferentes nas condições da peça ».[4] Foi por essas razões de ética e de decoro que a nova versão de 1806 terminava com o duplo suicídio de Fernando e de Stella. Mas com tal reformulação, a peça concebida por ele no tempo do Sturm und Drang havia perdido sua originalidade. Esse novo desfecho a assimilava a um banal drama passional.


Em contrapartida, a versão original de Stella não era uma literatura de convenção, mas a obra de confissão de um escritor jovem, sedutor, envolvido em múltiplas aventuras sentimentais: em Sesenheim, na Alsácia, com Friederike Brion, que lhe inspirará o poema Willkommen und Abschied; em Wetzlar, com Charlotte Buff, que será a heroína de Die Leiden des jungen Werther; em Frankfurt, onde ele ficará noivo, em 1775, de Anna Elisabeth, dita Lili Schönemann: é nesse momento que ele escreve seu drama Stella, e o primeiro encontro, descrito no ato IV, é idealizado pela música: Stella é seduzida pelo jovem violinista Fernando, assim como Goethe, convidado em Frankfurt à casa do banqueiro Schönemann, fora encantado por Lili tocando cravo.


Na quarta parte de Dichtung und Wahrheit, Goethe descreve assim seu primeiro encontro com essa jovem « bela, amável, culta », que « havia crescido no gozo de todas as vantagens sociais e dos prazeres mundanos ».[5] Por essa observação, Goethe punha em evidência a diferença de origem social entre Lili e ele. O pai da jovem, Johann-Wolfgang Schönemann, havia fundado em Frankfurt um banco que ainda no tempo de Goethe gozava de sólida reputação e, em sua casa, « a representação era considerada um dever »[6]; por isso Goethe, em Dichtung und Wahrheit, constata que, se Lili tivesse querido de algum modo continuar seu gênero de vida, não teria encontrado na casa burguesa do poeta « nem a ocasião nem o lugar ».[7]


Apesar dessas diferenças sociais e financeiras, uma amiga comum, Mademoiselle Delf, havia negociado e obtido o noivado de Lili, que então tinha 17 anos, com o jovem Goethe, que tinha 26. Mas Cornelia, a irmã de Goethe, tinha consciência de todos os obstáculos suscetíveis de impedir tal união, e os expôs a seu irmão. Em Dichtung und Wahrheit, Goethe reconhece que ela o havia convencido e, nas páginas seguintes, descreve as dúvidas partilhadas pelos dois amantes e sua resolução mútua de se separarem, aliás aprovada por Mademoiselle Delf.[8] Essa decisão foi igualmente dolorosa de parte a parte. Em 1830, durante uma conversa com Eckermann, Goethe evoca ainda Lili, que havia morrido em 1817, e constata:


« Ela foi de fato a primeira que amei profunda e verdadeiramente. Posso mesmo dizer que foi a última ».[9]


Quanto a Lili, ela parece nunca ter esquecido suas breves relações com o genial e entusiasta poeta de Frankfurt.[10]


Quem era, pois, essa família Schönemann, à qual o jovem Goethe quase se aliara? Sua mãe era uma senhorita d’Orville, originária do Artois; as perseguições religiosas dos espanhóis haviam constrangido seus antepassados reformados a emigrar no fim do século XVI, e eles foram estabelecer-se na Alemanha. O pai de Lili era banqueiro em Frankfurt, e foi nesse banco então florescente que o jovem Bernard-Frédéric de Turckheim (1752-1831) veio iniciar-se no ofício das finanças entre 1766 e 1770, após breves estudos na universidade de Estrasburgo.


Um destino: a família de Turckheim


A família de Turckheim, originária de Bitche, vivia em Estrasburgo desde o século XV. O pai de Bernard-Frédéric de Turckheim, que fora nomeado barão do Império pelo imperador Joseph II, era um luterano convicto que tivera cinco filhos em terceiras núpcias.


« Ele era desses estraburgueses de velha estirpe, prontos a erguer com as próprias mãos baluartes contra toda influência exterior nociva ao seu particularismo, do qual se orgulhavam ».[11]


Suas três filhas casaram-se: uma com um barão originário da Pomerânia, oficial francês que permaneceu fiel ao rei Luís XVI em 1792; outra com um professor de medicina cuja família estraburguesa era conhecida de Goethe; e a terceira com um dos mais ricos banqueiros de Estrasburgo. Seu irmão Jean, nascido no mesmo ano que Goethe, amigo do poeta Lenz e correspondente de Voltaire, viu sua carreira diplomática aniquilada pela Revolução Francesa. Comprou no país de Baden, em Altdorf, uma propriedade onde se estabeleceu com sua esposa, filha de um rico comerciante de Frankfurt, e colocou-se a serviço do duque de Hesse-Darmstadt. Mas conservou sempre a nostalgia de Estrasburgo.


Seu irmão caçula, Bernard-Frédéric (1752-1831), era apenas adolescente quando foi enviado, em 1766, a Frankfurt para iniciar-se nas técnicas fiduciárias no banco Schönemann, pois tinha então apenas catorze anos. Ali permaneceu até a idade de dezoito anos. Quanto a Lili, ela tinha apenas oito anos quando ele chegou e doze quando ele deixou Frankfurt para ir a Rouen, Nantes, Bordeaux, Montpellier, Lyon e Paris. Ele só retornaria a Estrasburgo em 1775, o mesmo ano em que Goethe, em Frankfurt, conhecia Lili.


Foi provavelmente em 1777 que Bernard-Frédéric retornou a Frankfurt e reviu Lili, cujos noivados com Goethe já estavam rompidos, e que laços afetivos se estabeleceram entre ambos. Mas o pai de Bernard-Frédéric, que ele próprio havia criado em Estrasburgo um banco importante e florescente, não aprovava esse projeto de casamento, na medida em que os negócios do banco Schönemann, em Frankfurt, iam muito mal. Com sua habitual rudeza de linguagem, escreveu a seu filho em 30 de janeiro de 1778:


« Eu ficaria aborrecido se precipitásseis qualquer compromisso […]. Eu vos reenviaria ao campo, onde o pássaro faz seu ninho antes de pôr ovos e o camponês (sic) sensato pensa no estábulo antes de comprar vaca (sic) ».[12]


Exigiu, portanto, um prazo de reflexão de seis meses antes de consentir nesse casamento, o que pouco agradou à senhora Schönemann. Foi somente em 20 de julho de 1778 que ele deu seu acordo, mas notar-se-á que nenhum representante da família de Turckheim esteve presente na cerimônia nupcial que ocorreu em 9 de agosto de 1778, em Frankfurt. Pouco após esse casamento, o banco Schönemann e Heyder faliu, de modo que o dote previsto para Lili jamais foi pago.


Lili Schönemann


A natureza ardente e apaixonada de Lili teria se acomodado melhor ao gênio de Goethe do que ao temperamento calmo e razoável de Bernard-Frédéric de Turckheim. Após vinte anos de casamento, ela ainda confiava a Lavater, o fundador da fisionomia, que fora demasiadas vezes constrangida a calar-se, a recolher-se em si mesma, sem ter podido realmente dar ao seu coração ocasião de se expandir livremente [13]. Muito atraída pelo pietismo, ela também escrevera a Lavater:


« Liebe bessert, und beseeliget den Menschen indem sie ihn Gott nähert ». [14]


Encontram-se ecos do destino de Lili no drama burguês Hermann und Dorothea, que Goethe redigiu em seu período de Weimar, em 1796-1797, e que situou no contexto da Revolução Francesa. Doroteia faz parte de um comboio de fugitivos que os revolucionários expulsaram da margem esquerda do Reno, e o jovem Hermann, filho de um hoteleiro da margem direita, apaixona-se por ela, mas seu pai não quer acolher na família uma desconhecida sem recursos: « …Espero que […] trarás para minha casa uma noiva com um belo dote » (Canto II). Sabe-se que o pai de Bernard-Frédéric de Turckheim reagira de modo semelhante, e Goethe pôde ter sido informado disso na medida em que encontrara, em 1795, em Weimar, uma amiga de Lili, Henriette von Egloffstein, que conhecera o jovem casal Turckheim em Erlangen, onde se refugiara desde 1792. Com efeito, o banqueiro Bernard-Frédéric de Turckheim era malvisto pelos partidários da Revolução, e o conflito atingiu seu paroxismo quando ele se tornou prefeito de Estrasburgo em 1792. Um mandado de prisão expedido contra ele, a perspectiva de um encarceramento e talvez da guilhotina levaram a família a atravessar o Reno. Lili, disfarçada de camponesa, com o mais novo de seus filhos às costas, partiu então a pé no meio de um grupo de fugitivos, como Doroteia no drama de Goethe [15]. Foi somente em 1795 que o casal Turckheim pôde regressar à Alsácia com seus filhos.


Sua tarefa foi então reconstituir o patrimônio familiar, muito abalado pelos acontecimentos políticos. A retomada do banco de Turckheim não se deu sem grandes dificuldades. Bernard-Frédéric teria se deixado facilmente desencorajar se o temperamento ativo e impetuoso de Lili não lhe tivesse vindo em auxílio. A partir de 1800, a prosperidade retornara, e o casal Turckheim adquiriu então duas propriedades, uma em Truttenhausen, perto de Heiligenstein, a leste do monte Sainte-Odile, outra em Krautergersheim, a cerca de doze quilômetros a sudoeste de Estrasburgo. Foi ali que a família se estabeleceu até que Bernard-Frédéric fosse nomeado, em 1809, ministro das finanças na Corte de Baden.


Karlsruhe, onde o casal Turckheim teve então de residir, permitiu a Lili reencontrar o estilo de vida que conhecera em sua juventude em Frankfurt, no tempo do idílio com Goethe. O fausto da Corte, as numerosas recepções, contudo, não iludiram Lili, baronesa de Turckheim:


« Essa água benta da corte exerce uma influência bem perigosa sobre quem quer que se afaste da verdadeira filosofia »,


escreve ela, e observa com ironia em outra carta datada de 1809:


« Acrescentarei que estou prevenido (sic) muito favoravelmente em relação à boa sociedade de C (=Carlsruhe), embora me assegurem que ali se dilaceram o mais cristãmente possível ».[16]


Ao cabo de um ano, Bernard-Frédéric demitiu-se do cargo de ministro, e a família retornou a Krautergersheim. Foi ali que viveu os acontecimentos da derrota napoleônica e a ocupação pelos exércitos aliados. Enquanto Turckheim, em Paris, tentava obter algumas vantagens para a Alsácia, notadamente o direito de plantar tabaco, Lili, que permanecera na região, ali sofria numerosas vexações. Após ter se reunido ao marido por alguns meses na capital francesa, voltou a Krautergersheim, caiu gravemente enferma e ali morreu em 1817.


Embora jamais tenha esquecido seu amor aos dezessete anos pelo genial Goethe, e apesar das vicissitudes de uma vida particularmente agitada, ela formou com Bernard-Frédéric de Turckheim um casal harmonioso: « Du, nur du allein kannst mich vollkommen beglücken », escrever-lhe-á um dia. Contudo, sua vida em Estrasburgo, na casa dos Turckheim, no nº 1 da rue Brûlée, isto é, entre a praça Broglie e a catedral, nem sempre fora fácil. Conhecem-se as reticências manifestadas por seu sogro por ocasião de seu casamento: em 1785 ela escrevera a Lavater:


« Aos olhos de meu sogro, o lugar que eu mais devia esforçar-me por ocupar permanecia o de primeira doméstica na casa ».[17]


A essa tensão somava-se o desentendimento com sua cunhada, esposa de Jean de Turckheim, filha de um rico comerciante de sedas de Frankfurt. Quanto a Bernard-Frédéric, cuja atividade e rendimentos dependiam da empresa familiar, ele era partidário de atenuar as tensões pela flexibilidade e pela diplomacia, o que evidentemente não correspondia ao temperamento espontâneo e impetuoso de Lili.


Foi em seus filhos que ela encontrou a verdadeira felicidade. Teve seis, uma filha e cinco filhos. Marie-Élisabeth, a primogênita, chamada também Lili, casará com o filho de um célebre helenista. Jean-Frédéric de Turckheim (1780-1850) estudou primeiro sucessivamente nas universidades de Erlangen, de Estrasburgo e de Paris, depois realizou diversos estágios bancários em Bremen e em Amsterdã. Associado ao banco paterno em 1806, contribuiu para sua prosperidade, pois se estima que, em 1815, estivesse à frente da sétima fortuna de Estrasburgo. Como também se interessava por agronomia, organizou no domínio de Thumenau uma das mais belas explorações agrícolas da Alsácia. Primeiro conselheiro geral do Baixo Reno, sucedeu em 1824 a seu pai como deputado. Tornado prefeito de Estrasburgo, interessou-se particularmente pelos problemas sociais, organizou casas de acolhimento para indigentes e escolas para crianças pobres, bem como uma instituição para o aperfeiçoamento dos artesãos. Contribuiu ativamente para a criação, em 1834, de uma Caixa de Poupança em Estrasburgo e empreendeu igualmente importantes trabalhos de urbanismo. Luterano engajado, sucedeu em 1831 a seu pai como presidente do diretório da Igreja da Confissão de Augsburgo e desempenhou essa tarefa com tanto zelo que negligenciou sua empresa bancária e conheceu, nesse domínio, sérios reveses que obscureceram o fim de sua existência.


Seu irmão Jean-Charles de Turckheim (1783-1862) aprendeu o ofício bancário em Frankfurt, na casa do cunhado de Suzette Gontard, a musa de Hölderlin, que a celebrou em seu romance Hyperion sob o nome de Diotima. Recordemos que Hölderlin plantara, em 1793, uma árvore da liberdade em Tübingen. Jean-Charles de Turckheim dirigirá em seguida com seu irmão mais velho o banco familiar em Estrasburgo.


Frédéric-Guillaume de Turckheim (1785-1831), o quarto filho de Lili, foi um personagem mais pitoresco. Após estudos movimentados em Göttingen, trabalhou por algum tempo em Paris, no Ministério do Interior, depois optou pela carreira militar. Em 1808, tornou-se ajudante de campo do general Rapp (1772-1821), ele próprio alsaciano, originário de Colmar, e participou com ele das campanhas napoleônicas da Espanha e da Rússia. Cercado durante um ano em Danzig após a retirada da Rússia, prisioneiro em Kiev, retornado depois à Alsácia, participou dos Cem Dias, de modo que se tornou, após a Restauração, um dos numerosos meio-soldos que Balzac descreverá, notadamente em Le Colonel Chabert. Retirado no domínio familiar de Truttenhausen, ali morreu em consequência de numerosos ferimentos recebidos em diferentes campos de batalha.


François-Louis de Turckheim viveu apenas três anos (1788-1791). Quanto ao último filho de Lili, Henri de Turckheim (1789-1849), teve um percurso bastante semelhante ao de Frédéric-Guillaume: realizou estudos na universidade de Göttingen, depois ingressou no exército sob Napoleão em 1813, ali permanecendo e tornando-se coronel em 1841. Sua descendência atual reside no castelo de Dachstein, que fora edificado em 1574 para o bispo de Estrasburgo, Jean IV von Manderscheid-Blankenheim, e que passou em 1718 a um subordinado do Cardeal de Rohan antes de pertencer à família de Turckheim.


As tendências pietistas de Lili haviam tornado simpático a ela o jovem médico, teósofo, economista e escritor Johann Heinrich Jung-Stilling (1740-1817), originário da Vestfália, que esteve em Estrasburgo em 1770 e ali se tornou comensal do jovem Goethe na pensão mantida pelas irmãs Lauth, frequentada igualmente pelo teósofo Frédéric-Rodolphe Saltzmann (1749-1821). Em seu relato intitulado Theobald oder die Schwärmer, Jung-Stilling evoca por diversas vezes a « gnose » rosacruciana e descreve o itinerário de Christian Rosenkreuz segundo o relato da Fama Fraternitatis [18]. Na mesma obra, um interlocutor faz diante de Theobald o elogio da Franco-Maçonaria, uma Ordem que, segundo ele, « não tem outro fim senão incitar o homem a tornar-se melhor, a aperfeiçoar sua inteligência a fim de torná-lo mais apto ao serviço de Deus e da humanidade » [19].


Os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa


Os dois irmãos Jean e Bernard-Frédéric de Turckheim haviam-se interessado por essa Ordem filantrópica e cristã à qual pertenciam príncipes como Ferdinand de Brunswick e Charles de Hesse-Cassel. Além disso, estavam em relação com o lionês Jean-Baptiste Willermoz, e foram em grande parte os artífices da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa que Willermoz pôde fazer prevalecer no famoso Convento de Wilhelmsbad, reunido pelo duque de Brunswick durante o verão de 1782, e do qual participaram os dois irmãos Turckheim. Em Frankfurt, o pai de Lili, Johann Wolfgang Schönemann, seu tio Jacob Philippe d’Orville e seu irmão Jean-Noé Schönemann eram igualmente membros de uma loja maçônica. Sabe-se, por outro lado, que Goethe, desde 1780, era afiliado à loja Amalia de Weimar, à qual seu filho August se juntou em 1815, e à qual pertencia o escritor Johann Joachim Christoph Bode (1730-1793), cujas algumas cartas foram encontradas no fundo Turckheim em Dachstein.


Nesse mesmo ano de 1780, Joseph Balsamo, dito conde de Cagliostro (1743-1795), encontrava-se em Estrasburgo, onde soube obter a proteção do cardeal de Rohan, bispo de Estrasburgo e grande esmoler da França. O príncipe fora subjugado por uma « iniciação espiritual » que o taumaturgo pretendia ter-lhe concedido, de tal modo que se propunha fazer assinar por Luís XVI uma patente real autorizando Cagliostro a exercer oficialmente seus poderes de curador [20]. É certo que o célebre romance de Alexandre Dumas atribui a Joseph Balsamo poderes políticos que ele não exerceu, mas foi, ainda assim, sob sua influência que o ingênuo cardeal de Rohan se envolveu no famoso caso do colar da Rainha. Foi em Estrasburgo que Cagliostro parece ter inventado e estabelecido sua Maçonaria egípcia. O objetivo da iniciação ao grau de Mestre Egípcio era, segundo Cagliostro, restituir ao homem decaído os poderes conferidos por Deus a Adão antes da queda. À regeneração espiritual que os Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa pretendiam conferir, ele entendia acrescentar uma regeneração física. Em 3 de março de 1781, Johann Caspar Lavater descreveu em uma carta a Goethe seu encontro em Estrasburgo com Cagliostro. Apresentava-o como um « Parazelsischer Sternnarr », um « Arkanist », um antifilósofo [21]. A opinião de Willermoz, que Cagliostro tentou seduzir em Lyon, não foi mais favorável [22], e a Mãe-Loja do Rito Egípcio criada pelo Grande Cophta em Lyon, em 1784, mal sobreviveu ao escândalo do Colar da Rainha. Sabe-se que esse logro foi utilizado por Goethe em sua peça intitulada Der Groß-Cophta (1791), na qual ele tentava defender a honra de Maria Antonieta. Entrementes, Cagliostro fora encarcerado na Bastilha, depois expulso da França, preso pela Santa Inquisição e condenado pela justiça pontifícia à detenção perpétua.


Entre 1784 e 1788, a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa iria, entretanto, conhecer uma grave crise que provocou na família de Turckheim importantes reações. Sob a influência do suábio Franz Anton Mesmer (1734-1815), instalado em Paris desde 1778, e de seu memorial publicado em 1779, a teoria dita do magnetismo animal conheceu uma voga considerável. Mesmer concebia o ser humano como um ímã bipolar pelo qual passam fluxos magnéticos. O « baquet » de Mesmer, instalado em Paris, era suposto curar toda sorte de doenças e conheceu um sucesso considerável. J. N. Dufort, conde de Cheverny (1731-1802), introdutor dos embaixadores na Corte, relata em suas Memórias sua visita a Mesmer em Paris e descreve, não sem humor, a instalação de um « baquet » em Cheverny, não longe de seu castelo:


« Os coxos, os paralíticos dos dois burgos (Cheverny e Cour-Cheverny) foram convidados […]. A magnetização e todas as caretas que havíamos visto fazer foram empregadas sem sucesso, sem obter o menor efeito. […] Assim, um mês depois, já não se falava mais nisso. A areia foi devolvida ao jardim, as garrafas à adega, e o ferro a um destino mais útil. Sem discutir com os loucos ou as cabeças exaltadas, sabíamos o que pensar, e isso nos bastava » [23].


Em Lyon, parece ter havido maior credulidade. Desde 1784, Willermoz e muitos outros converteram-se ao magnetismo místico. Videntes sonâmbulas faziam a seus magnetizadores revelações estranhas. Uma delas, apelidada o Agente desconhecido, era uma canonisa do capítulo de Remiremont, Madame de Vallière, que inundou de mensagens misteriosas a loja criada por Willermoz para comentá-las [24] e que pretendia levantar o véu sobre o caráter secreto do verdadeiro cristianismo. Os estraburgueses não eram ignorados pelo Agente desconhecido, pois uma carta de Willermoz a Bernard-Frédéric de Turckheim, datada de 26 de junho de 1785, anuncia-lhe que fora eleito como iniciado, assim como Saltzmann e o pastor luterano Laurent Blessig. Este último permaneceu desconfiado, mas os dois primeiros puderam tomar conhecimento da « doutrina da verdade » [25]. Em uma carta a Charles de Hesse, de 26 de fevereiro de 1787, Bernard-Frédéric de Turckheim relata que, em Lyon, « homens respeitáveis lhe asseguraram […] que haviam recebido comunicação da Iniciação que N. S. J. Chr. deu a seus apóstolos » [26]. Mas essas pretensas revelações e essas vaticinações haviam despertado nele e em seus amigos estraburgueses, notadamente no pastor Blessig, interrogações, até mesmo dúvidas e sérias reservas. Em uma nota de 13 de agosto de 1786, Bernard-Frédéric de Turckheim consignou a lista das afirmações da vidente nas quais tropeçara:


« 1. Primazia da Igreja de Roma e de seu Chefe visível, centro comum da Igreja; primazia legítima na ordem hierárquica, que, por sua essência, pertence à forma da sociedade cristã. 2. Concílio, centro comum da cristandade, único juiz competente em matéria de fé […]. 3. Auxílios e consolação ligados à missa baixa. 4. Expiação purgatorial comentada e sustentada pela obra de purificação que Cristo operou nos 7 planetas […] ». [27]


Turckheim recordava que, em Lyon, quando assistira a sessões de magnetismo, amigos protestantes haviam sido « exortados por sonâmbulas crisíacas dirigidas por Willermoz […] a fazer abjuração pública da fé protestante » [28] Por todas essas razões, os luteranos de Estrasburgo sentiam-se desconfortáveis. Em uma carta de 21 de novembro de 1785, cuja cópia manuscrita ainda existe na Biblioteca da cidade de Lyon [29], Bernard-Frédéric de Turckheim expôs, portanto, a Willermoz tanto suas dúvidas quanto às pretensas revelações do Agente desconhecido quanto às posições eclesiais do grupo de Lyon, pois este afirmava a primazia absoluta do pontífice de Roma e o direito à « defesa da Religião pela espada », o que só poderia reavivar, entre os protestantes de Estrasburgo, as lembranças das guerras de religião.


A liberdade do cristão


Já em uma carta a Bernard-Frédéric, datada de 4 de julho de 1784 e encontrada no fundo Bernard de Turckheim [30], Willermoz havia, ao mesmo tempo em que acusava Roma de ser uma « Corte mais depravada que muitas outras », criticado os cristãos que dela se separaram « para reformar abusos e inovações que mereciam sê-lo », mas que, « levados por suas paixões, foram chocar-se contra outros extremos », de modo que « a verdade permaneceu isolada no meio de todas as confissões cristãs que creram possuí-la ». Quanto a ele, Willermoz, ainda que não fizesse « profissão pública de estar ligado à comunhão romana », considerava, no entanto, que, sem estar « no próprio centro, [ela] está, contudo, muito mais próxima dele do que aquelas que são mais modernas ».


A missiva de Bernard-Frédéric de Turckheim, de 21 de novembro de 1785, que defendia a causa protestante, pôs fogo no barril de pólvora. Willermoz, profundamente atingido, respondeu com uma carta de trinta e duas páginas, datada de 10 de dezembro de 1785, cuja cópia se conserva na Biblioteca de Lyon [31]. Após tentar justificar as revelações extáticas do Agente desconhecido, ele se alonga amplamente sobre « a primazia da Igreja de Roma e de seu chefe ». Apesar de reconhecer certas fragilidades, não põe em dúvida a autoridade papal e critica sem rodeios os Reformadores que, segundo ele, foram guiados apenas pelo orgulho e pela paixão: « …uma separação fundada em paixões e no aniquilamento dos dogmas mais essenciais não pôde produzir um culto verdadeiro e puro » [32].


Bernard-Frédéric de Turckheim, que viria a tornar-se presidente do Consistório Geral da Igreja da Confissão de Augsburgo, evidentemente não podia subscrever os argumentos desenvolvidos por Willermoz em sua longa carta de 10 de dezembro de 1785. Nem a teurgia que entusiasmava Lyon, nem o papismo professado por Willermoz eram capazes de satisfazê-lo. É certo que seu irmão Jean de Turckheim, assim como Frédéric Rodolphe Saltzmann, eram bastante favoráveis a uma abertura ecumênica que tendesse a realizar um cristianismo que transcendesse as fronteiras confessionais. Contudo, Jean de Turckheim teve de reconhecer muito mais tarde, em uma carta a Willermoz de 19 de fevereiro de 1822, que sua posição o expunha à suspeita de criptocatolicismo [33]. Seja como for, o capítulo provincial da Alsácia anunciou, em 1788, sua ruptura com a Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, e Bernard-Frédéric de Turckheim, em carta de 11 de agosto de 1785, já expunha a Charles de Hesse seu desejo de retornar


« à simplicidade da Criança Cristã, que, esquecendo os Tipos e os Emblemas, crê que a luz brilha sobre todos os homens que adoram a Deus em Espírito e verdade e confessam que Cristo é o Filho do Deus vivo, nosso Redentor e o caminho da Salvação sem ciência que abreviará a rota para chegar ao reino dos Céus » [34].


Saltzmann partilhava dessa convicção. Em uma carta dirigida em fevereiro de 1817 a Jean de Turckheim, ele escrevia:


« A ciência divina tem um curso totalmente diverso das ciências humanas; ela age no interior e por vias secretas e inteiramente espirituais. Os homens não podem ser senão instrumentos passivos ». [35]


Em tal contexto, compreende-se o êxito que já obtivera, desde 1767, o misterioso Martinès de Pasqually com seu Traité de la Réintégration. O próprio título dessa obra indicava seu significado. Por meio de um processo teúrgico, os discípulos deveriam recuperar as virtudes espirituais originalmente concedidas por Deus ao ancestral do gênero humano. Aqueles que alcançavam essa regeneração recebiam o título supremo de Réaux-Croix, denominação provavelmente derivada do termo hebraico H¡AØR (réau), que significa « o vidente », e que, por outro lado, podia evocar o nome, bem conhecido desde 1614, da fraternidade dos Rosa-Cruzes.


A respeito do Traité de la Réintégration, Willermoz escrevia a Jean de Turckheim que, para estar em condições de compreendê-lo, ele deveria preparar-se espiritualmente, lê-lo diariamente e comunicar sua substância apenas a homens aptos a recebê-la. Jean de Turckheim, entretanto, mostrava-se algo desconcertado com o uso frequente, no que dizia respeito a Pasqually, do termo « magia »; em uma carta a Willermoz, de 12 de agosto de 1821, expressa certo ceticismo a esse respeito:


« Como essas palavras sempre arrastam consigo alguns sinais, alguma ideia de misticidade e de obscuridade que pouco me agradam quando se quer fazer-se entender… ». [36]


Por outro lado, Jean de Turckheim e os martinistas alsacianos, impregnados de pensamento pietista, criam na reintegração final em Deus de toda a criação, como indicava Jean de Turckheim em uma missiva a Willermoz, de 4 de agosto de 1821:


« A questão da apocatástase, ou reintegração final de todos os seres, só me foi inspirada porque eu a julgava, em certa medida, conforme à ideia da misericórdia infinita, que ultrapassa ainda a sua justiça ». [37]


Conclusão


O destino da dinastia dos Turckheim resume, ao mesmo tempo, a grandeza e os dramas da Europa no tempo de Goethe. A família d’Orville, expulsa da França em razão das perseguições infligidas aos protestantes, refugiada em Frankfurt e aliada à família Schönemann, atuou no setor bancário com Bernard-Frédéric de Turckheim em Estrasburgo. Jean-Frédéric Schönemann havia se casado, em 1787, com uma parente de Suzette Gontard, celebrada pelo poeta Hölderlin sob o nome de Diotima. Lili Schönemann, como vimos, estivera noiva de Goethe antes de desposar Bernard-Frédéric de Turckheim, grande viajante pela França; mas a tormenta revolucionária obrigou-a a atravessar o Reno. Seu cunhado Jean mantinha amizade com o poeta Lenz (1751-1792) e tivera relações com Voltaire (falecido em 1778). Escritor, compôs uma História da Casa principesca de Hesse e cogitou publicar a correspondência de Montalembert. Foi constrangido pela Revolução Francesa a instalar-se no país de Baden. Após a Restauração, sonhou terminar seus dias na Alsácia, ao pé dos Vosges [38]. Assim, a história obrigou a família de Turckheim a viver alternadamente de um e outro lado do Reno, que Victor Hugo, em 1838, chamará de rio « providencial » e « simbólico »:


« em sua inclinação, em seu curso, nos meios que atravessa, ele é, por assim dizer, a imagem da civilização, a que tanto serviu e ainda servirá. Ele desce de Constança a Rotterdam […], da cidade dos papas, dos concílios e dos imperadores ao entreposto dos comerciantes e dos burgueses, dos Alpes ao Oceano, como a própria humanidade desceu das ideias altas, imutáveis, inacessíveis, serenas, resplandecentes, às ideias amplas, móveis, tempestuosas, […] insondáveis, […], da teocracia à diplomacia, de uma grande coisa a outra grande coisa » [39].


Para a família Turckheim, dividida entre Estrasburgo e Frankfurt, entre as propriedades de Truttenhausen, Dachstein e Altdorf, o Reno foi ao mesmo tempo um baluarte e um elo entre duas culturas e duas línguas. Forçados pelas vicissitudes da história, seus membros distribuíram-se de um e de outro lado do grande rio. Os descendentes de Jean habitam no país de Baden, onde um Freiherr von Türckheim reside no castelo de Altdorf. Alguns dos bisnetos de seu irmão Bernard-Frédéric permaneceram alsacianos e ainda vivem nas residências familiares, enquanto outros membros da família se estabeleceram na região parisiense. Uns e outros são portadores e guardiões de uma rica tradição herdada dos contemporâneos de Goethe.


Notas:


1 -Trad. H. Lichtenberger in : Goethe. Drames de jeunesse. Paris 1929, p. 110.


2 - Cf. R. Minder. Allemagnes et Allemands. Paris 1948, p. 307.


3 - Lichtenberger, op. cit., p. XXXV


4 - Gœthes Werke, hrsg. Von Emil Ermatinger, 32. Bd., S. 483.


5 - Vierter Teil. Siebzehntes Buch


6 - Vgl. E. Dürckheim. Lilis Bild. Nördlingen 1879, p. 14.


7- Op. cit., 4e partie, Livre XVII.


8- Ibid. Livre XX.


9- J. P. Eckermann. Gespräche mit Gœthe. Den 5. März 1830


10- Cf. A. Bielschowsky. Friederike und Lili, fünf Gœthe-Aufsätze, München 1906, p. 140 – J. Keller, Lili Schönemann, baronne de Turckheim. Berne 1987, op. cit., p. 108. La présente contribution doit beaucoup à cette excellente étude qui repose sur des lettres inédites, le journal intime et divers documents émanant de la famille de Turckheim, retrouvés par Antoine Faivre en 1967 : cf. « Le fonds Bernard de Turckheim (domaine français) », in : Revue de l’Histoire des Religions, Paris, janvier-avril 1969, p. 47-67) – « Le fonds Bernard de Turckheim (domaine alle­mand) », en collaboration avec Jules Keller, in : Bulletin de la Faculté des Lettres de Strasbourg, février 1969, fascicule 5. – « Lettres inédites de J.B. Willermoz et de quelques autres… », in : Renaissance Traditionnelle, Clichy 1978, n° 35, p. 171-184 (lettres de Willermoz à Turckheim) – n° 36, p. 281-294 (lettres de Willermoz à Turckheim) – 1979, n°38, p. 112-127 (lettres de Henri de Virieu à Willermoz) – 1979, n° 39, p. 181-199 (lettres de H.I. Schröder, Esmonin de Dampierre, etc., à Turckheim) – 1982, n° 49 à 52 (Le fonds Bernard Turckheim) – Cf. Antoine Faivre : Le fonds Bernard Turckheim (1752-1831) (ouvrage en préparation).


11- Jules Keller, op. cit., p. 37.


12- Cité par J. Keller, op. cit., p. 75.


13- ibid. p. 108


14- Lettre du 1er février 1791.


15- Cf. K. Hildebrandt. Gœthe. Seine Weltweisheit im Gesamtwerk. Leipzig 1941, p. 175.


16- Cf. J. Keller, op. cit., p. 99. L’orthographe de Lili a été maintenue.


17- Ibid., p. 79.


18- Johann Heinrich Jung’s, genannt Stilling, sämmtliche Werke. Stuttgart 1841, 6. Bd, p. 158-184.


19- Ibid., p. 369.


20- Cf. R. Le Forestier, op. cit., p. 769, n° 23.


21- Cf. Klaus H. Kiefer, « Balsamo, Giuseppe », in : Goethe Handbuch, Bd 4/1, Stuttgart 1998, S. 96.


22- Cf. R. Le Forestier, op. cit., p. 769-775.


23- J. N. Dufort, comte de Cheverny. Mémoires sur les règnes de Louis XV et Louis XVI et sur la Révolution. Paris 1886, t. II, p. 7.


24- Ibid., p. 794 sq.


25- Lettre de Willermoz du 10 décembre 1785. Cf. J. Keller, op. cit., p. 576.


26- Ibid., p. 161.


27- Ibid. p. 576. Orthographe de B. F. de Turckheim.


28- Cité par R. Le Forestier, op. cit., p. 806.


29- Ms. 5868, n° 68. Cité par J. Keller, op. cit., p. 576.


30- Lettres publiées par Antoine Faivre in : Renaissance Traditionnelle, n° 36, octobre 1978, p. 289 sqq.


31- Cf. J. Keller, ibid., p. 577.


32- Lettre du 10 décembre 1785, p. 19. Cité par J. Keller, op. cit., p. 165.


33- Cf. J. Keller, op. cit., p. 578.


34- Ibid, p. 169. Cf. R. Le Forestier, op. cit., p. 808.


35- Cité par R. Le Forestier p. 916.


36- Cité par J. Keller, op. cit., p. 362. Orthographe de Jean de Turckheim.


37- Cf. J. Keller, op. cit., p. 501 et 699.


38- Cf. J. Keller, op. cit., p. 42.


39- Victor Hugo : Le Rhin, lettre XIV.


I.C.J.M.S. Que Nossa Ordem Prospere!


Auteur

Roland Edighoffer

Université Paris III

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