A Forja do Templo Vivo: A Purificação pelas Virtudes Cristãs no Grau de Aprendiz Retificado
- Primeiro Discípulo

- 7 de abr.
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Conforme pontuamos no artigo “A Cruz Antes da Luz: A verdadeira Theosis no Rito Escocês Retificado e na Tradição Cristã”, a experiência de uma iniciação verdadeiramente cristã, como vivida sob a égide do Rito Escocês Retificado, é, em essência, um profundo itinerário deificante, conduzido pela cruz e pela graça de Cristo, em conformidade com a verdadeira Theosis esboçada na tradição cristã (recebida, não pretendida pelo ego iniciático). Distanciando-se de um mero compêndio de preceitos morais ou, ainda, de abstrações filosóficas profanas, nosso rito, no grau de Aprendiz, apresenta-se como uma autêntica via pedagógica de santificação, enraizada na ortodoxia cristã e na sabedoria perene do Evangelho de São João. Partindo da constatação da queda do homem, que teria perdido sua condição luminosa inicial, quedando-se nas trevas da privação, nosso rito convida o candidato a trilhar o estreito e árduo caminho do Gólgota Espiritual. Como pontuamos antes, no referido artigo, a iluminação cristã não prescinde do sacrifício; impõe-se, de forma inelutável, a aceitação da cruz antes de contemplar a luz. No cristianismo, a santificação não é um ato de magia ou de práticas esotéricas calçadas em superstições, mas a conformação da alma ao sacrifício do Verbo Encarnado, um processo de mortificação e renúncia que abre espaço para a ação da graça santificante.
Nesse contexto de profunda ascese, o simbolismo das virtudes cristãs ganha força transformadora. A Temperança, embora detalhada somente no grau de Companheiro, já se faz presente no grau de Aprendiz: durante a preparação exterior, o candidato é despojado de todos os seus metais, moedas e quaisquer formas de adorno, o que antecipa a vivência moral que será aprofundada posteriormente. A nudez parcial do candidato, assim como o despojamento de seus metais, não são alegorias superficiais, mas refletem o verdadeiro esvaziamento de si mesmo ao qual o candidato deve se submeter (kenosis), perante a vacuidade das ilusões do mundo e da tirania que as paixões exercem sobre a alma humana.
É o doloroso e humilde reconhecimento, diante do Criador, da extrema pobreza espiritual, verdadeiro estado de mendicância anímica, em qual se encontra o homem. O ritual expressa, de forma incontestável, essa exigência através da voz do irmão introdutor, que adverte:
”Senhor, não poderá aproximar-se das portas da loja se tiver consigo a menor porção de metal, convido-o, assim, a despojar-se a si próprio, inteiramente." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Este despojamento material ecoa o mandamento apostólico de nos desvestirmos do homem velho e de suas concupiscências, recordando a exortação de São Paulo aos Efésios (Ef 4, 22-24) para que nos despojemos do nosso comportamento passado, corrompido pelas paixões enganadoras. É o abraço literal à pobreza de espírito evangélica, condição sine qua non para a herança do Reino dos Céus.
Vendados os olhos, o candidato percebe‑se imerso nas trevas de sua própria ignorância e fragilidade ontológica. Eis, então, o homem decaído conclamado a entregar‑se à virtude teologal da Fé: uma entrega cega, absoluta, uma submissão à direção da Providência Divina. A cegueira física do candidato evoca a ofuscação da visão beatífica à qual a escuridão do pecado nos submete, e a sua caminhada incerta lembra‑nos que o cristão peregrina pela fé, e não pela visão (2 Cor 5,7). Mais tarde, ao colocar sua mão sobre as Sagradas Escrituras para prestar juramento solene, o Aprendiz demonstra mais uma vez que a Fé supera aquilo que ele vê (ou acha que vê) e sela sua irrevogável aliança com o Verbo Encarnado, jurando fidelidade sobre o Santo Evangelho, que é a palavra do Deus Vivo. Nosso rito não oferece atalhos gnósticos, devaneios esotéricos nem especulações cabalísticas; exige a submissão total da inteligência e da vontade, sublinhando a advertência amorosa do próprio Cristo a São Tomé: "Felizes os que não viram e creram" (Jo 20, 29).
Entretanto, como bem sabido por todos os que fizeram da cruz o seu guia, a fé precisa ser provada para ser autenticada, amadurecida e demonstrar sua verdadeira essência, e isso se dá, muitas vezes, no crisol do sacrifício e da aflição. Deixar-se iluminar pela Luz de Cristo exige uma dolorosa purificação da alma e dos sentidos. O Venerável Mestre recorda ao candidato a gravidade inegociável do seu percurso, afirmando categoricamente:
"Senhor, quem ama a VERDADE deseja conhecê-la; ele a busca com ardor e persevera em procurá-la. Mas ainda não é suficiente. O homem que quiser descobri-la deve romper os laços que o prendem, deixar de lado as ilusões que o enganam, superar com coragem os obstáculos. Este homem deve, portanto, não apenas BUSCAR e PERSEVERAR, mas também SOFRER." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Assumindo o humilhante título de “Sofredor”, o neófito depara-se com as tenazes resistências de sua própria natureza e da matéria, simbolizadas pelas penosas provas elementais às quais ele é submetido. É na forja de tais provações que se começa a tomar forma em seu cerne a virtude cardeal da Fortaleza (ou virtude da Força, como se verá no Grau de Mestre).
Na purificação ascética pela água, aprendemos:
"É pela dissolução das coisas impuras que a água lava e purifica. Ela afasta as suas influências funestas e os princípios da putrefação." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Esta ablução litúrgica nos remete ao batismo de arrependimento e às lágrimas de contrição - que costumam acompanhar tal momento - lavam o homem de suas iniquidades. Na prova da terra, o candidato sofre severa advertência sobre sua decaída condição:
"O grão lançado à terra recebe dela a vida; mas se o seu germe está alterado, a própria terra acelera a putrefação." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Nesta advertência, vê-se ecoar fortemente o ensinamento evangélico do grão de trigo que deve cair na terra e morrer para dar fruto (Jo 12, 24). A tradição de nosso Regime nos ensina que não há ascensão aos céus sem a mortificação constante do homem velho e sem o suportar heroico da cruz. Como atestam a teologia moral católica e a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino (II-II), a fortaleza é a força infusa que permite à alma suportar as maiores adversidades por amor ao Sumo Bem, em plena conformidade com a exortação do Mestre Divino:
"No mundo havereis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo" (Jo 16, 33).
A passagem pelas provas culmina em um embate frontal com a ordem imutável do cosmos divino e, finalmente, a virtude do grau: A Justiça.
Ao receber o primeiro frágil raio de luz física, a grande visão do neófito não é a de um consolo fácil, mágico, místico ou esotérico, mas a de uma admoestação aterrorizante expressa na palavra iluminada «JUSTIÇA», rigorosamente acompanhada pelo brilho punitivo das espadas dos seus irmãos apontadas contra o seu peito nu.
O Venerável Mestre clama com severidade e autoridade quase dogmática:
"As leis da JUSTIÇA são eternas e imutáveis. Quem, temendo os sacrifícios que exige, recusa submeter-se a eles, é um covarde que se desonra e se perde." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Este forte impacto litúrgico desperta a consciência adormecida do homem para o fato de que foi criado à imagem imortal de Deus e que a profanação dessa mesma imagem pelo pecado atrai de forma inevitável a severidade do Juízo Divino. A justiça exige que se dê a Deus e ao próximo o que lhes é estritamente devido, Chamando a alma à reordenação para que as suas inclinações torpes se alinhem em perfeição com as leis eternas do Céu. É o santo temor de Deus, o princípio da verdadeira Sabedoria, que afasta o homem do abismo e prepara a terra árida do coração para a manifestação suprema do amor perfeito.
Toda a estrutura desta ascese sustenta-se sobre a virtude teologal da Caridade e sobre seu rosto feito visível, a Benevolência, verdadeira pedra angular desse majestoso edifício espiritual. A severidade inflexível da Justiça desaguaria num abismo estéril de desespero se não fosse imediatamente transfigurada e vivificada pelo bálsamo salvífico da Clemência. Logo após a justiça, o neófito depara-se com o esplendor da palavra «CLEMÊNCIA». O ritual ensina que:
"A CLEMÊNCIA tempera os rigores da justiça em favor daqueles que generosamente se submetem às suas leis." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
A ascese do rito Retificado não tolera a dureza vingativa do coração; exige a compaixão e o perdão incondicional das ofensas, imitando o amor que jorrou do lado aberto de Nosso Senhor Jesus Cristo na cruz.
A caridade é imposta como o dever sagrado, e o ritual declara com fulminante clareza a máxima incontestável da Ordem:
"O Maçom que não abrir o seu coração às necessidades e aos infortúnios dos outros homens, é um monstro na sociedade dos Irmãos." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Um verdadeiro monstro! Assim é definido aquele que, dizendo servir à luz de Cristo, odeia ou ignora as chagas do seu próximo, ecoando com rigor absoluto a primeira epístola de São João (1 Jo 4, 20). O rito exalta assim a Caridade teologal como a própria vida de Deus infundida na alma miserável, a amizade divina que é a mãe e a raiz profunda de todas as virtudes infusas. O mandamento evangélico de amar não é uma filantropia social, mas a participação fervorosa do cristão na dinâmica eterna do amor trinitário.
Esta via é rigorosa em sua exigência doutrinária, não admitindo relativismos profanos que maculem a tradição. O ritual sentencia sobre a obrigação moral do neófito perante a Santa Igreja e os valores divinos:
"Aquele que se envergonha da Religião, da Virtude e dos seus Irmãos é indigno da estima e da amizade dos Maçons." - Excerto do Ritual de Aprendiz Maçom.
Somente pela assunção humilde destes compromissos a alma pode prosseguir na senda luminosa de sua conversão e futura regeneração.
E é assim que a via percorrida pelo Aprendiz no Rito Escocês Retificado revela-se, em toda a sua pureza, beleza e majestade, como uma autêntica via purgativa e iluminativa orientada sem desvios para a verdadeira theosis e santidade que se espera dos seguidores dos apóstolos de Nosso Senhor. Pela temperança de privações que despoja radicalmente o ego; pela fé contrita que confia no invisível e se prostra diante das Sagradas Escrituras; pela fortaleza heroica que carrega pacientemente a cruz através do rigor amargo dos elementos e da espada; pela justiça reta que conforma a inteligência às verdades imutáveis; e, como coroa celestial inviolável, pela caridade que religa a criatura chorosa ao seu Criador piedoso, o homem decaído reconstrói no recôndito do seu ser o autêntico templo vivo do Espírito Santo. Trata-se do constante, sublime e doloroso convite para deixar que o homem velho morra, a fim de que a Luz incriada e invicta de Nosso Senhor Jesus Cristo resplandeça definitivamente nas trevas da nossa condição, realizando o destino imortal para o qual fomos amados: o glorioso regresso à unidade com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.
I.C.J.M.S. Que Nossa Ordem Prospere!




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