Da Maçonaria Cristã à Maçonaria Retificada
- Primeiro Discípulo

- há 7 dias
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O dia 08 de outubro de 2023 conduziu ao Oriente Eterno um homem de inteligência privilegiada, que soube colocar a serviço da fé e da busca da verdade todo o seu coração e toda a sua alma. Jean-François Var, aluno da prestigiada École Normale Supérieure, licenciado em Letras e diplomado em História, não se contentou com as honras ou as vaidades acadêmicas. Para ele, o saber humano só carregava propósito quando iluminado pela luz da Revelação Cristã e quando ordenado à glória de Deus.
Sua vida carregou as marcas da dupla e indissociável vocação do sacerdócio e do mestrado em teologia. Devotado Padre, dedicou-se também à maçonaria retificada, sendo membro do Grand Prieuré des Gaules desde 1982. Seu coração, em nenhum momento, encontrou divisão entre o altar e a Loja; ambos, para Var, eram espaços onde o homem encontrava a chance de se consagrar ao mesmo Senhor, tendo nos dois lugares a oportunidade de encontrar-se com o Verbo que se fez carne em Jesus Cristo.
Sua visão sacerdotal o levou a compreender, com rara lucidez, a dimensão transcendente que a via iniciática do Rito/Regime Escocês Retificado carrega em seu cerne. Tal compreensão permitiu que Var ensinasse, com a autoridade de quem consagrou a vida ao serviço do altar, que o trabalho do maçom retificado em Loja é, essencialmente, sagrado, pois se dedica a Deus Pai Todo-Poderoso e é realizado para a Sua glória. A Maçonaria Retificada não era, para Var, apenas uma associação de homens dedicados ao amor fraterno, à filosofia ou à caridade; sendo, acima de tudo, uma verdadeira milícia espiritual, vocacionada a testemunhar, diante dos homens, a perenidade da fé em Cristo e a realidade do mistério salvífico.
Pesquisador incansável, nos deixou um legado inestimável, composto por dezenas de artigos sobre maçonaria, teologia e história, nos quais, em cada linha, percebia-se sempre o mesmo zelo de quem escreve por amor e não por vãos desejos de glória ou reconhecimento, tendo como norte principal o amor à Verdade que, em Cristo, se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14).
Na conferência "Da Maçonaria Cristã à Maçonaria Retificada", cuja íntegra temos a honra de apresentar aos nossos leitores, Var aplica seu rigoroso método para dissipar as sombras das hipóteses infundadas e das interpretações secularizadas que, com o tempo, buscaram afastar a Maçonaria de suas raízes cristãs. Com provas documentais, ele nos mostra que a Maçonaria operativa e especulativa manteve, em seu núcleo, a fé em Cristo como pedra angular. Mais do que isso, elucida a evolução histórica do Regime Escocês Retificado, detalhando como suas classes concêntricas e sua doutrina peculiar apontam para o fato de que a Graça Divina é o único caminho para a verdadeira regeneração do homem.
Esperamos que apreciem o pensamento desse verdadeiro filho da Igreja que soube "nada antepor ao amor de Cristo". Que o seu exemplo nos ilumine para que, perseverando sempre nos caminhos do Senhor e também "nada antepondo ao amor de Cristo", possamos ser-Lhe fiéis, apesar de nossas debilidades.
Da Maçonaria Cristã à Maçonaria Retificada
Título curioso, não é mesmo, este que escolhi para dar à presente conferência! Talvez tenha intrigado alguns dentre vocês - aqueles que se dão ao trabalho de questionar e refletir. Se assim foi, tanto melhor, pois esse era um dos motivos de minha escolha: levá-los a fazer perguntas - sendo o outro motivo o fato de que esse título é perfeitamente adequado à realidade histórica que ele abrange, como veremos daqui a pouco.
Eu falava de questionamentos e de perplexidade. Com efeito, por mais pouco conhecido e, sobretudo, mal compreendido que seja o Regime Escocês Retificado (inclusive por alguns de seus próprios praticantes), ninguém ignora, entretanto, que esse rito é cristão ou, pelo menos, segundo o que se diz, « impregnado de cristianismo » - veremos mais adiante o que se deve pensar dessa maneira de se expressar -, ao passo que os demais ritos são tidos como não cristãos. Visto sob esse ângulo, minha exposição consistiria em partir do Retificado para chegar ao Retificado; e, para ilustrá-la, poderíamos escolher entre o pião que gira sobre si mesmo e a serpente que morde a própria cauda!...
Vocês bem podem imaginar que não é disso que se trata. O que pretendo mostrar-lhes, e demonstrar-lhes, é de que maneira a Maçonaria Retificada se insere na evolução da Maçonaria em geral, ou seja, em termos mais precisos, como ela se inscreve na linha direta da Maçonaria tradicional e como permanece fiel às autênticas tradições maçônicas, ao mesmo tempo em que lhes acrescenta uma contribuição nova que lhe é própria. Para falar claramente, eis o que me proponho a expor-lhes, com provas em apoio:
A Maçonaria, não somente operativa, mas também especulativa ou simbólica, foi cristã desde suas origens e assim permaneceu durante boa parte de sua história.
Ela certamente passou por um processo de descristianização, mas esse processo não foi nem rápido, nem fácil, nem geral: permaneceu parcial, e as exceções foram - e continuam sendo - numerosas e duradouras; o Regime Retificado é uma delas, notável, mas não é a única.
Sob esse ponto de vista, o Regime Retificado não difere muito, em sua história, de muitos outros sistemas maçônicos.
Em contrapartida, ele apresenta uma singularidade única: a doutrina que ensina.
Voltarei posteriormente a esse termo, «doutrina».
Antes de prosseguir, devo dizer-lhes algumas palavras sobre mim mesmo, não pelo prazer de me colocar em evidência, mas para caracterizar a exposição que se seguirá. Sou, por vocação, um maçom retificado. Não o sou de origem: fiz-me «retificar» por uma escolha refletida. Isso não me impede de ter praticado e continuar praticando outros ritos e sistemas, tanto na França quanto no exterior. Mas o Retificado é o meu rito de eleição.
Em segundo lugar, em razão de minha formação universitária, sou historiador; aprendi o método histórico e, em particular, a distinguir com precisão - e honestidade - aquilo que é comprovado, aquilo que é provável e aquilo que é conjectural ou hipotético (distinção que, infelizmente, nem sempre é feita pelos pesquisadores da Maçonaria).
Além disso, adquiri, por outros meios, alguns conhecimentos em filosofia e teologia. É por isso que os estudos aos quais me dediquei, por um lado, sobre a Maçonaria medieval e, por outro, sobre a Maçonaria do século XVIII, alguns dos quais foram publicados nos Travaux de Villard de Honnecourt, são, uns, de natureza histórica e documental, enquanto outros se situam no plano da espiritualidade.
Tudo isso para adverti-los de que o que se seguirá não será de minha autoria: limitarei-me a citar, parafrasear e explicitar documentos. Tampouco será uma defesa pro domo, uma justificativa da Maçonaria Retificada; ela não necessita disso.
Será uma exposição puramente factual e informativa, apresentando apenas fatos circunstanciados, comprovados e documentados, com exclusão de toda hipótese conjectural.
Esta exposição não será combativa nem polêmica; contudo, tenho o dever, e o cumprirei, de desfazer uma série de inverdades que obscurecem e obstruem o campo da reflexão. Desde que me dedico ao estudo dessas questões, fico desagradavelmente impressionado ao constatar a complacência que muitos maçons demonstram e que, infelizmente, divulgam e fazem outros compartilhar - e isso é grave, pois, se dissesse respeito apenas a eles mesmos, seria um mal menor - para com concepções confusas e geralmente equivocadas, às quais ajustam os fatos, em vez de deduzirem suas concepções dos fatos.
Nunca será demais insistir: fatos incontestáveis e ideias claras - não há outro método que seja válido, tanto na pesquisa maçônica quanto em qualquer outra.
A Maçonaria Cristã
A Maçonaria Operativa
Posto esse ponto preliminar, chego ao meu primeiro ponto: a Maçonaria foi originalmente cristã e assim permaneceu por um longo período. Serei breve e me limitarei a citar, dentre todos os documentos de que dispomos, alguns textos suficientemente eloquentes para dispensar comentários.
Imagino que todos vocês saibam o que são aquilo que, em inglês, se denomina Old Charges, isto é, as «Antigas Constituições» ou ainda, segundo outra tradução, os «Antigos Deveres» (uma prestigiosa loja de Paris leva esse nome).
Restam aproximadamente cento e trinta desses documentos. Na verdade, eles são os «documentos fundadores» da Franco-Maçonaria, e foi sob esse título que os mais importantes foram publicados em um volume da Herne (1992), que reúne os estudos e traduções anteriormente publicados nos Travaux de Villard de Honnecourt.
Tomemos, por exemplo, o mais antigo desses textos, o manuscrito Regius, datado do final do século XIV (aprox. 1390). Nele se lê, entre outras coisas (vv. 497-500, op. cit., p. 67):
E agora roguemos a Deus Todo-Poderoso
E à sua Mãe, a radiante Maria,
Que nos ajude a guardar estes artigos
Juntamente com estes pontos.
A respeito dos «Quatro Coroados», diz-se (vv. 511-512, ibid.):
Mas eles permaneceram inabaláveis na lei de Cristo
E fiéis ao seu ofício, sem transigir.
Mais adiante, lê-se (vv. 585-590, p. 71):
Se te falta inteligência para isso,
Roga a Deus que dela te faça dom;
O próprio Cristo nos ensina,
A santa Igreja é a casa de Deus,
Ela não foi feita para outra coisa
Senão para nela rezar, como nos diz a Escritura.
Em outro trecho, acrescenta-se (vv. 684-692, p. 75):
Vem, portanto, à igreja, se puderes,
Para ouvir a missa todos os dias;
Se não puderes vir à igreja,
Em qualquer lugar onde trabalhes,
Quando ouvires tocar para a missa,
Roga a Deus, no silêncio do teu coração,
Que te conceda participar deste serviço
Que se celebra na igreja.
E o texto termina assim (vv. 789-794, p. 79):
Que Cristo, portanto, por sua graça celestial,
lhes conceda o espírito e o tempo necessários
para ler e compreender bem este livro,
e obter o céu como recompensa.
Amém! Amém! Assim seja
!Digamos todos isso por amor de Deus.
Àquele que objetasse que se trata de um texto anterior à Reforma, o que é incontestável, e que as coisas necessariamente teriam mudado depois disso, responderei com duas citações do manuscrito Grand Lodge nº 1, datado pelo próprio copista de 1583 e, portanto, posterior em várias décadas à instituição do anglicanismo. Esse manuscrito é o terceiro conhecido das Old Charges. Seu texto começa assim (p. 145):
«Que o poder do Pai celestial, e a sabedoria do Filho glorioso, pela graça e bondade do Espírito Santo, que são três Pessoas e um só Deus, estejam conosco em nosso começo, e nos concedam a graça de nos conduzirmos aqui nesta vida de tal maneira que possamos alcançar Sua bem-aventurança, que jamais terá fim. Amém.»
Digamos desde já que essa oração invocatória reaparecerá, com algumas variantes de detalhes que jamais afetam seu caráter de confissão de fé trinitária, em um grande número das Old Charges posteriores.
Além disso, a série de prescrições ou «deveres» começa da seguinte maneira (p. 150):
«O primeiro dever é este: que vocês sejam homens fiéis a Deus e à santa Igreja; e que não abriguem erro nem heresia em seu entendimento e julgamento...»
Essa prescrição também figura em muitos outros textos dos séculos XVII (por exemplo, no manuscrito Watson, de aproximadamente 1687, p. 169) e XVIII.
Um deles, o manuscrito Dumfries nº 4, datado de aproximadamente 1710, acrescenta inclusive uma precisão que induziu alguns comentaristas ao erro (p. 196):
«Vocês serão fiéis e constantes para com a santa Igreja católica e, tanto quanto lhes for dado conhecer, fugirão de toda heresia, cisma ou erro.»
Quanto à «obrigação do aprendiz», ela começa assim (p. 198):
«Primeiramente, ele será fiel a Deus, à santa Igreja católica, ao rei e ao mestre a quem servirá.»
Os comentaristas a que eu me referia, quando se perderam em hipóteses arriscadas, simplesmente esqueceram que a Igreja da Inglaterra, dita anglicana, reivindica para si a qualidade de «católica», cuja menção figura expressamente em sua denominação oficial...
Resta, e é isso que nos importa neste momento, que o caráter cristão dos maçons é afirmado sem qualquer ambiguidade, e isso em um documento anterior em menos de dez anos à fundação, em 1717, por Anderson e seus companheiros, da Grande Loja de Londres.
Mas e depois? Pois bem, depois encontramos o que se denomina Constituições Roberts, assim chamadas em razão de seu editor. As Constituições Roberts são as primeiras das Old Charges a terem sido impressas (as demais somente foram publicadas, por estudiosos, a partir do final do século XIX); sua publicação data de 1722, o ano imediatamente anterior à primeira edição das Constituições de Anderson.
Ora, o que encontramos nelas? Primeiramente, a oração invocatória já citada a partir do manuscrito Grand Lodge, do século XVI, e que, portanto, continuava em vigor dois séculos mais tarde:
«Que o Pai Todo-Poderoso do céu, com a sabedoria do Filho glorioso, pela bondade do Espírito Santo, três pessoas em um só Deus, esteja conosco em nosso começo e nos conceda sua graça para governar nossas vidas, de modo que possamos alcançar sua bem-aventurança, que jamais terá fim. Amém.» (Villard de Honnecourt, nº 9, 1984, pp. 29-30).
Em seguida, entre as prescrições, encontramos esta, que agora já conhecemos bem (ibid., p. 33):
«I. Devo exortá-los a honrar a Deus em sua santa Igreja; a não recorrer a nenhuma heresia, cisma ou erro em seu entendimento...»
A questão está encerrada!
Mas voltemos por um instante ao manuscrito Dumfries nº 4. Ele apresenta um caráter cristão bastante acentuado; alguns chegaram mesmo a qualificá-lo de hiperbólico. Alguns excertos o demonstrarão, embora fosse necessário citar o texto inteiro.
Nas «perguntas e respostas» destinadas ao uso dos aprendizes, pode-se ler, entre outras coisas (op. cit., pp. 199-201):
«(4) Em qual loja você foi recebido? Na verdadeira loja de São João.»
(Voltaremos a essa denominação.)
« (29) Que escada eles [os maçons] tiveram na construção do Templo?
A escada de Jacó, que estava erguida entre o céu e a terra.
(30) Quantos degraus havia na escada de Jacó?Três.
(31) Quais?
O Pai, o Filho e o Espírito Santo? »
Um pouco mais adiante:
« (38) Qual foi a maior maravilha vista ou ouvida no Templo?
Deus foi homem e um homem foi Deus;
Maria foi mãe e, contudo, permaneceu virgem. »
Depois disso, seguem algumas «perguntas referentes ao Templo». Citarei apenas a primeira (pp. 201-202):
«1. O que significa o Templo?O Filho de Deus e, particularmente, a Igreja; o Filho sofreu que seu corpo fosse destruído e ressuscitou no terceiro dia, e edificou para nós a Igreja cristã, que é a verdadeira igreja espiritual»
(noção que faz referência implícita, mas inequívoca, à Primeira Epístola de São Pedro [2,4]).
Essas perguntas e respostas são em número de treze, número que, na simbologia cristã tradicional, se refere a Cristo e aos doze apóstolos. E todas elas consistem em relacionar figurativamente à pessoa de Cristo cada um dos elementos constitutivos do Templo, apresentados sucessivamente (op. cit., pp. 201 a 203) - vocês verão mais adiante por que me detive um pouco sobre elas.
A Maçonaria Especulativa. Os «Modernos»
Portanto, repito, a questão está encerrada - pelo menos no que diz respeito aos maçons operativos. Mas e quanto aos especulativos? A criação da Grande Loja de Londres, em 1717, e a publicação das Constituições de Anderson, em 1723, trouxeram alguma mudança a esse estado de coisas?
A resposta é: sim e não.
Todos conhecem aquele famoso primeiro artigo «referente a Deus e à religião» das referidas Constituições, que já fez correr tanta tinta - tintas de todas as cores, eu diria. Retomemos sua redação:
« Um maçom é obrigado, por seu compromisso, a obedecer à lei moral; e, se compreender corretamente a Arte, jamais será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Mas, embora nos tempos antigos os maçons tivessem o dever, em cada país, de pertencer à religião daquele país ou nação, qualquer que ela fosse, julgou-se agora mais conveniente obrigá-los apenas àquela religião com a qual todos os homens concordam, deixando a cada um suas próprias opiniões; isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as confissões ou crenças pelas quais possam se distinguir; por meio disso, a Maçonaria torna-se o Centro da União e o meio de estabelecer uma verdadeira amizade entre pessoas que, de outro modo, poderiam permanecer perpetuamente afastadas umas das outras¹. »
A formulação é indubitavelmente equívoca, daí as consequências que provocou. O que, em contrapartida, não é equívoco são as intenções de seu autor. A questão foi perfeitamente esclarecida pelos numerosos estudos publicados, em particular, na Ars Quatuor Coronatorum, a revista da famosa loja de pesquisas da Grande Loja Unida da Inglaterra, Quatuor Coronati. Desses estudos, mencionarei apenas um, por ser fundamental: o do reverendo Neville Barker Cryer, intitulado The De-Christianizing of the Craft (publicado no volume 97 da A.Q.C., em 1984, e traduzido, aliás bastante mal, nos números 12, 13 e 14 dos Travaux de Villard de Honnecourt).
As convicções de Anderson estão bem estabelecidas². Embora fosse pastor presbiteriano, adquiriu reputação suficiente para ser apelidado de «bispo Anderson» - o que é um cúmulo, pois os presbiterianos não admitem o episcopado - e destacou-se, particularmente, por um tratado intitulado Unidade na Trindade e Trindade na Unidade, que, conforme ele próprio anunciava sem rodeios, era uma «dissertação contra os idólatras, os judeus modernos e os antitrinitários» (op. cit., p. 38).
Na redação desse primeiro artigo, há duas menções que merecem destaque.
Primeiramente, o dever, para os maçons dos tempos antigos, de pertencer à religião de seu país, qualquer que ela fosse. Isso nada mais é do que a regra cujus regio, ejus religio, oficializada na Europa (continental) e, mais precisamente, na Alemanha, pela Paz de Augsburgo (1555), celebrada entre Carlos V e os príncipes protestantes, e posteriormente pelo Tratado de Vestfália (1648), que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos: regra que dizia respeito apenas aos católicos e aos protestantes, com exclusão de todos os demais.
Quanto às palavras traduzidas para o francês por «confissões ou crenças», isto é, denominations or persuasions, a consulta a um dicionário que registra a história da língua inglesa demonstra que elas são sinônimas, o que não surpreenderá ninguém que tenha alguma familiaridade com a retórica da época, a qual recorria frequentemente à adição repetitiva e iterativa; e que elas se aplicam às confissões cristãs.
Em suma, a «tolerância» que Anderson tinha em mente, sem empregar esse termo, é uma tolerância entre cristãos e somente a eles se aplica. Ela se destinava a pôr fim aos conflitos religiosos que, como frequentemente se esquece, perduraram na Inglaterra e na Escócia (país natal de Anderson) por quase dois séculos e atingiram graus de crueldade que hoje já não somos capazes de imaginar. Só isso já constituía um imenso progresso!³
Quanto à «religião na qual todos concordam» ou «com a qual todos estão de acordo», religião, portanto, «católica» em seu sentido próprio, isto é, universal, e à qual, na segunda edição de suas Constituições (a de 1738), Anderson daria o nome de «noaquismo», ela nada tem a ver com o deísmo ou com a religião natural, que exclui a Revelação.
Muito pelo contrário, trata-se da religião fundada na primeira Revelação de Deus ao homem, manifestada e concretizada pela primeira Aliança, aquela estabelecida entre Deus e Noé, da qual a Bíblia dá testemunho. E essa religião revelada exclui, repito, tanto as religiões naturalistas quanto as religiões que não se fundamentam na Bíblia.
De fato, uma análise aprofundada do pensamento de Anderson demonstrou que o que ele tinha em vista era aquele cristianismo primitivo e universal do qual Santo Agostinho tivera - em todo caso, o primeiro a fazê-lo com tamanha clareza - a intuição e que posteriormente seria reencontrado entre os fundadores do Regime Retificado. Aqui, ou nunca, é o caso de citar esta passagem bastante conhecida de Joseph de Maistre, em seu Mémoire au duc de Brunswick:
«A verdadeira religião tem bem mais de dezoito séculos. Ela nasceu no dia em que nasceram os dias.»⁴
Essa era, portanto, a ideia primeira de Anderson, que também foi a de Joseph de Maistre: a reunião dos cristãos.
Isso, repito, é um fato, não algo conjectural, não algo possível ou provável, mas comprovado. Entretanto, como sua redação era, repito também, equívoca e ambígua, dela resultou algo diferente do que ele havia previsto: primeiro, uma descristianização de fato da Maçonaria inglesa; depois, uma descristianização de direito.
Estudei a questão de maneira bastante aprofundada em uma comunicação apresentada no colóquio organizado em maio de 1987 sobre «As origens judaico-cristãs da Maçonaria», colóquio cujos «anais» constituem o tomo 15 dos Travaux de Villard de Honnecourt (1987), e remeto vocês a esse trabalho.
Direi simplesmente, para ser breve, que aquilo que acabo de chamar de descristianização de fato, e que ocorreu ao longo do século XVIII, não resultou de uma vontade deliberada, mas, antes, do processo de crescente secularização das ideias e dos costumes - em uma palavra, da própria sociedade - que caracteriza a época do Iluminismo em toda a Europa.
Além disso, essa evolução encontrou resistências vigorosas e persistentes, das quais a mais espetacular foi o surgimento, a partir de 1751, da Grande Loja dos Antigos, que logo passou a ser liderada por Laurence Dermott.
Os «Antigos» e os tradicionalistas
Essa Grande Loja, como indica sua denominação, reivindicava a restauração dos usos maçônicos «antigos», isto é, tradicionais, abandonados pelos «Modernos», como estes qualificavam pejorativamente a Grande Loja de Londres.
Entre as queixas que os Antigos formulavam contra os Modernos, figuravam em posição de destaque o abandono das orações e a descristianização dos rituais (cf. meu estudo, op. cit., p. 130).
Ao contrário, os rituais dos Antigos continham, por exemplo, na abertura dos trabalhos, a seguinte oração, proveniente da Maçonaria irlandesa, mas que também era conhecida pela Maçonaria inglesa (ibid., p. 135):
«Santíssimo e Gloriosíssimo Senhor Deus, Tu, Grande Arquiteto do céu e da terra, que és o doador de todos os dons e de todas as graças, e que prometeste que, onde dois ou três estiverem reunidos em teu Nome, Tu estarás entre eles; em teu Nome nos reunimos e nos congregamos, suplicando humildemente que nos abençoes em nossos empreendimentos, que nos concedas teu Santo Espírito para iluminar nossas mentes com sabedoria e inteligência, a fim de que possamos conhecer-Te e servir-Te corretamente, e para que todas as nossas ações sirvam à tua Glória e à salvação de nossas almas.»
Se houvesse uma recepção de um maçom, prosseguia-se desta maneira:
«E concede ao nosso novo irmão que aqui se encontra que dedique sua vida ao teu serviço, para que seja um verdadeiro e fiel irmão entre nós; reveste-o de tua divina Sabedoria, para que possa, por meio dos segredos da Maçonaria, ser capaz de descobrir os mistérios da piedade e do cristianismo.»
Em todos os casos, a conclusão era a mesma:
«Nós Te suplicamos humildemente, em nome e por amor de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém.»
(Aqueles dentre vocês que praticam o Rito de Emulação terão reconhecido aqui uma oração que ainda subsiste na cerimônia de iniciação, mas despojada de toda referência cristã.)
Entretanto, a acusação de descristianização, embora fosse válida para os Modernos em geral, não se aplicava a todos: entre eles permanecia um número não desprezível de maçons que um grande erudito irlandês, John Heron Lepper (que foi bibliotecário da Grande Loja Unida da Inglaterra), chamou de Traditioners, termo que poderíamos traduzir por «tradicionalistas» e que, não obstante as modificações introduzidas nos rituais por decisão de sua própria Grande Loja, conservavam os usos e o espírito «antigos»⁵.
Entre esses usos havia - fato que merece ser observado, sobretudo em função do que virá a seguir - a prática de uma Maçonaria em quatro graus: o grau de aprendiz, o grau de companheiro, o grau «sublime» de mestre e, finalmente, como quarto grau, a Santo Arco Real, da qual se afirma, no Ahiman Rezon (a Constituição da Grande Loja dos Antigos), que ela é «com toda certeza mais augusta, sublime e importante do que aqueles que a precedem» e que «é o ápice da perfeição da antiga Maçonaria». (Em outro lugar, Laurence Dermott a chama de «a raiz, o coração e a medula da Maçonaria».)
Ora, o Arco Real, em seu estado primitivo, é total e intensamente cristã, como os mais antigos rituais conhecidos - cuidadosamente preservados nos arquivos ingleses - demonstram abundantemente; vários deles reproduzem, inclusive sob o título «Conhecimento místico do Templo», as treze perguntas e respostas do Dumfries nº 4 que mencionei anteriormente (cf. meu estudo, op. cit., pp. 144-150): esse conhecimento místico de Cristo como Templo constituía o ponto culminante da cerimônia.
Maçonaria cristã na Inglaterra
Independentemente disso, surgiram ou se aclimataram na Inglaterra graus ou sistemas de graus totalmente e exclusivamente cristãos, entre os quais, para citar apenas os mais notáveis, a Ordem Real da Escócia, os Cavaleiros Templários (Knights Templar) e ainda, vindo da França, o Soberano Príncipe Rosa-Cruz; e, de maneira mais geral, os graus de caráter cavalheiresco então constituídos.
O reverendo Barker Cryer, em seus estudos, particularmente naquele que mencionei, apresenta uma impressionante quantidade de fatos e textos que comprovam a persistência e até mesmo a vitalidade, durante todo o século XVIII inglês e mesmo posteriormente, não apenas de uma Maçonaria cristã, mas de uma concepção cristã da Maçonaria.
Mais ainda, ele demonstra que semelhante concepção, longe de ser marginal, ainda contava com um público suficientemente amplo para receber a sanção oficial das autoridades, tendo o próprio Grão-Mestre à frente - não da Grande Loja dos Antigos, como se poderia esperar, mas da dos Modernos.
Foi justamente isso que ocorreu com uma obra publicada em 1775 - guardem bem essa data: ela é exatamente contemporânea da constituição do Regime Escocês Retificado - por William Hutchinson, sob o título Spirit of Masonry.
Esse livro alcançou enorme sucesso, como demonstram suas numerosas edições, tanto na Inglaterra quanto no exterior. Ora, nele o autor desenvolve a ideia segundo a qual os três graus da Maçonaria - ele conhece apenas três, nisso sendo um Moderno - simbolizam os três estágios da Revelação divina: o grau de aprendiz, a religião natural; o grau de companheiro, a religião judaica, proveniente da revelação pessoal de Deus a Moisés; finalmente, o grau de mestre, que ele denomina «a Ordem dos maçons mais solene e sagrada, a Ordem de mestre maçom», a religião cristã.
Ele escreve:
«O conhecimento do Deus da natureza constitui o primeiro estado de nossa profissão; o culto a Deus sob a lei judaica é descrito no segundo grau da Maçonaria; e a revelação cristã aparece na última e suprema Ordem.»
Acrescenta, inspirando-se no profeta Ezequiel:
«Esta ciência surge no Oriente. É do Oriente, como se sabe, que o conhecimento se espalhou pelo mundo ocidental e alcançou a Europa. Oriente era uma expressão utilizada pelos antigos para designar Cristo: é nesse sentido que encontramos os profetas empregando a palavra Anatolè.»⁶
Em outro trecho, afirma:
«O mestre maçom representa um homem submetido à doutrina cristã, salvo do túmulo da iniquidade e elevado à lei da salvação.»
Ele explica por que «nossas lojas são dedicadas a São João»:
«São João (Batista) merece nossa dedicação porque proclamou que a salvação estava próxima, com a vinda de Cristo; e nós, enquanto reunião de homens congregados na verdadeira fé, comemoramos a proclamação do Batista. No nome de São João Evangelista, reconhecemos o testemunho que ele dá e o divino Logos que ele torna manifesto.»
A respeito da estrela flamejante, explica que ela «representa a estrela que guiou os sábios até Belém, proclamando aos homens o nascimento do Filho de Deus e conduzindo nossa progressão espiritual até o autor da redenção».
Quanto aos «três luminares» que compõem a loja, afirma que eles são «um tipo da Santíssima Trindade».
E há tantos outros trechos da mesma natureza que poderíamos citar - eu os traduzi em outro lugar.⁷
Ora, repito, tudo isso consta de uma obra aprovada e recomendada pelas instâncias dirigentes unânimes da Grande Loja dos Modernos!
Isso demonstra até que ponto elas estavam distantes de praticar uma política deliberada de descristianização.
Esta somente surgiria cerca de quarenta anos mais tarde, na sequência do Ato de União de 1813, entre as duas Grandes Lojas que até então eram rivais. Ela foi obra do duque de Sussex, Grão-Mestre autocrático durante trinta anos (de 1813 a 1843) da nova Grande Loja Unida da Inglaterra, que impôs, é verdade, rituais que, em sua essência, eram os dos Antigos, mas esvaziados de seu espírito «antigo», isto é, cristão.
O trabalho estava praticamente concluído em 1821 para as lojas, e em 1835 para os capítulos da Arco Real.
Em contrapartida, as Ordens de Cavalaria - não incluídas no Ato de União - permaneceram à margem, e nada foi alterado em seu espírito. Por isso, desde então e ainda hoje, elas permaneceram estritamente reservadas aos cristãos.
Tomemos, por exemplo, os Cavaleiros Templários: a qualificação exigida de um candidato é dupla: ser Companheiro da Arco e subscrever uma declaração de fé «na santa e indivisível Trindade».
O mesmo ocorre, para dar outro exemplo, com o décimo oitavo grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, o de Rosa-Cruz... E poderia continuar.
Isso quanto à Inglaterra.
O mesmo se aplica aos países de influência inglesa: Escócia, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e até mesmo os Estados Unidos da América.
Neste último país, a situação não é homogênea no que diz respeito ao Rosa-Cruz. Em contrapartida, absolutamente em toda parte, as Ordens de Cavalaria, e particularmente as Ordens Templárias, estão fechadas aos não cristãos.
Maçonaria cristã na França
E na Europa continental?
A Maçonaria, como todos sabem, chegou à França vinda da Inglaterra e, posteriormente, ao restante do continente, muitas vezes a partir da França e, mais raramente, diretamente da Inglaterra. Falarei apenas da França.
A origem inglesa da Maçonaria na França é dupla: os Modernos, dos quais procederam o Rito Francês e o Rito Escocês Retificado; e os Antigos, dos quais procedeu o Rito Escocês Antigo e Aceito.
Já caracterizei suficientemente o espírito «antigo» para que não seja necessário insistir nele. Não é de surpreender que os primeiros rituais do Rito Escocês Antigo e Aceito, os do Supremo Conselho de 1804, fossem perfeitamente cristãos. Citarei apenas este diálogo de réplicas no grau de aprendiz, segundo o Guide des maçons écossais:
«Por que sua loja está situada no Oriente e no Ocidente?
Porque todos os templos estão assim dispostos.
Por quê?
Porque o Evangelho foi primeiro pregado no Oriente e depois se estendeu ao Ocidente.»
Esta é a tradução palavra por palavra do ritual dos Antigos (Les Trois Coups distincts) e daquele utilizado entre os Modernos «tradicionalistas» (Jachin et Boaz).
Passo adiante e remeto vocês, quanto ao restante, aos estudos de Gilles Pasquier, que se tornou especialista nesse ritual antigo e aceito «primitivo», particularmente àqueles publicados nos Travaux de Villard de Honnecourt.
Quanto à derivação a partir dos Modernos, ela ocorreu muito cedo, antes que tivesse início na Inglaterra o lento e trabalhoso processo de descristianização que descrevi, e esse processo jamais ocorreu na França, pelo menos durante o século XVIII - no século XIX, a situação é outra.
A Maçonaria francesa, na época de Voltaire, Diderot e Rousseau, era simplesmente e naturalmente cristã!
Todas as lojas, sem exceção, denominavam-se «lojas de São João» - como, aliás, era um costume geral entre as lojas inglesas, tanto operativas quanto especulativas, durante a primeira metade do século, como demonstram várias Old Charges no caso das primeiras e, no caso das segundas, a famosa divulgação A Maçonaria Dissecada, de Pritchard, datada de 1735.
Em todas as lojas, sem exceção, o Livro Sagrado utilizado era o Evangelho, e mais particularmente o Evangelho de São João, que geralmente era considerado suficiente; e era com a mão direita pousada sobre esse Evangelho que o candidato prestava seu juramento.
Tudo isso é relatado na Réception d’un Frey Maçon, divulgação de 1737 atribuída ao tenente-general de polícia Hérault e também publicada por Gilles Pasquier (Travaux de Villard de Honnecourt, nº 12, 1986, pp. 88-90), bem como em diversas atas elaboradas após incursões policiais em cabarés onde se realizavam reuniões de lojas⁸.
A Maçonaria francesa do século XVIII era, portanto, cristã, era composta quase exclusivamente por cristãos e, em particular, por uma multidão de eclesiásticos, dos quais o professor Ferrer Benimeli elaborou, em Archives secrètes du Vatican et de la franc-maçonnerie (ed. francesa, Paris, Dervy, 1986), uma relação nominal que ocupa nada menos que cem páginas e que, segundo sua própria confissão, está longe de ser completa.
Havia inclusive lojas compostas exclusivamente por membros do clero, especialmente em mosteiros tão renomados quanto Fécamp ou Clairvaux.
Acrescentemos, para dar uma ideia tão fiel quanto possível do espírito maçônico da época, que várias lojas estabeleceram regulamentos que proibiam expressamente a admissão de judeus.
Por exemplo, ainda em 1791, a assembleia plenária das lojas de Bordeaux decidiu:
«Os judeus não são admitidos em nossos mistérios. Nossas lojas são dedicadas a São João Batista, precursor do Messias, e os judeus não reconhecem nem a divindade do Messias nem a missão de São João Batista. É sobre o Evangelho de São João que prestamos juramento, e este livro sagrado, objeto eterno de nossa veneração, não é, para os judeus, senão uma obra de trevas e de mentiras.»
Esse eloquente documento encontra-se na obra de Jean Baylot, Dossier français de la franc-maçonnerie régulière (Paris, Vitiano, 1965, p. 81); Baylot assinala, em contraste, o acolhimento fraterno dispensado aos protestantes nas lojas de predominância católica (ibid.).
As coisas, portanto, são claras: na França, no século XVIII, os maçons eram cristãos. É por isso que a adaptação francesa das Constituições de Anderson se dirige exclusivamente aos cristãos.
Existem duas versões. Uma delas, intitulada Règles et devoirs de l’Ordre des francs-maçons du royaume de France, de 1735, foi entregue em 1737 ao barão de Scheffer, com a finalidade de constituir lojas no reino da Suécia; encontra-se conservada nos arquivos da Grande Loja da Suécia, de onde Arthur Groussier a retirou em 1932.
A outra, denominada Devoirs enjoints aux maçons libres, que apresenta um texto mais antigo, encontra-se na Biblioteca Nacional, onde foi descoberta mais recentemente.
As duas versões foram publicadas lado a lado por Étienne Fournial (separata das Publications de la commission d’histoire du G.O.D.F., s.l.n.d.).
Independentemente das variantes estilísticas que apresentam, elas não divergem em nada quanto ao conteúdo. Citarei apenas um trecho significativo:
Versão «francesa»:
«Embora, nos séculos passados, os maçons fossem obrigados a pertencer à religião do país onde viviam, há algum tempo julgou-se mais conveniente exigir deles apenas a religião com a qual todo cristão concorda, deixando a cada um seus sentimentos particulares...»
Versão «sueca»:
«Nos séculos passados, os franco-maçons eram obrigados a professar a religião católica, mas, há algum tempo, não se examinam seus sentimentos particulares a esse respeito, desde que sejam cristãos e fiéis à sua promessa...»
Essa foi a prescrição legada pela França à Suécia. Desde então, jamais a Grande Loja da Suécia, assim como as demais Grandes Lojas escandinavas que possuem a mesma estrutura e a mesma prática ritual - a saber, as da Dinamarca, da Noruega e, em parte, da Islândia -, às quais se deve acrescentar, entre as Grandes Lojas da Alemanha, aquela que é proveniente da Grande Loja da Suécia, isto é, a Große Landesloge der Freimaurer von Deutschland, jamais, repito, essas Grandes Lojas voltaram atrás nessa disposição nem colocaram em questão o caráter exclusivamente cristão da Maçonaria que, nos casos citados, permanece fechada aos não cristãos.
Não julgo, não avalio, não faço senão expor fatos históricos incontestáveis; pouco importa se eles abalam ideias preconcebidas. E esses fatos históricos demonstram, em todo caso, que o exclusivismo cristão do Regime Escocês Retificado, longe de ser uma aberração monstruosa, como alguns não estão longe de considerá-lo, era, na época de sua criação, algo inteiramente comum e normal.
Acrescentemos desde já, para não precisarmos voltar a esse ponto, que a persistência desse exclusivismo em nossos dias, mesmo que alguns o considerem chocante, não o é nem mais nem menos do que no caso dos Regimes escandinavos.
Na realidade, deveria sê-lo menos, visto que, na França, coexistem com o Retificado outros ritos que foram abertos aos não cristãos, o que não ocorre nos países mencionados anteriormente.
Ora, essa persistência não se explica pela sobrevivência, de certo modo mecânica e passiva, de um legado residual da história, nem por algum apego passadista e rotineiro a formas desligadas das realidades mentais e sociológicas de seu tempo e que perderam toda significação.
Ela se justifica por uma espécie de necessidade metafísica e, vamos empregar a palavra, doutrinal.
O Regime Escocês Retificado
Mas, antes de examinar esse ponto importante, é necessário recordar-lhes brevemente aquilo que, naturalmente, todos vocês sabem: a origem e a estrutura do Regime Escocês Retificado.
Um pequeno esclarecimento terminológico, de passagem. É frequente empregarem-se indistintamente as palavras «Regime» e «Rito». Isso é um erro. Elas não são de modo algum sinônimas. A noção de Rito diz respeito à prática ritual e às suas modalidades: composição e disposição da loja, cerimônias dos graus etc. A noção de Regime engloba a organização em graus sucessivos (a escala dos graus) e as autoridades que os governam hierarquicamente.
Nenhum de vocês ignora, portanto, que o Regime Escocês Retificado é um sistema maçônico articulado em dois conjuntos: um primeiro conjunto, maçônico stricto sensu, que no século XVIII era chamado de «classe simbólica», constituído por quatro graus (como na Maçonaria dos Antigos): Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês de Santo André, este último marcando, segundo os textos, «o termo da iniciação maçônica»; e um segundo conjunto, de caráter cavalheiresco, composto por um grau preparatório, o de Escudeiro Noviço, e pelo grau último de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa.
Vocês também não ignoram que, tal como existe, esse Regime foi obra de um maçom de envergadura excepcional, uma das personalidades mais eminentes e importantes da história da Maçonaria francesa - e não somente dela: Jean-Baptiste Willermoz, cujas qualidades extraordinárias começaram a ser reconhecidas graças a estudiosos esclarecidos como Antoine Faivre.
Como sabem, esse verdadeiro «patriarca da Maçonaria» que foi Willermoz - nem que seja por causa de sua excepcional longevidade (viveu noventa e quatro anos, de 1730 a 1824), mas não apenas por isso - elaborou seu Regime de 1774 a 1782, com a assistência de dois grupos de colaboradores, em Lyon e em Estrasburgo; e sua obra recebeu sanção oficial em duas etapas: primeiro, no plano nacional, em 1778, no Convento das Gálias, em Lyon; depois, no plano europeu, em 1782, no Convento de Wilhelmsbad, na Alemanha.
Para edificá-lo, tomou seus materiais, por um lado, da Maçonaria francesa de seu tempo, sobre a qual falei longamente, e, por outro, de um sistema maçônico alemão que já se intitulava «Maçonaria Retificada», mas que é mais conhecido pelo nome de Estrita Observância, da qual se inspirou sobretudo para os graus cavalheirescos, mas também, em parte, para os graus maçônicos.
E, finalmente, daquele que durante toda a sua vida veneraria como um mestre, Martines de Pasqually, tomou o essencial: a doutrina que este lhe havia revelado.
Martines de Pasqually não é o tema de minha exposição de hoje; portanto, não lhes falarei sobre ele, mas unicamente sobre sua doutrina, pois é ela que sustenta todo o conjunto do Retificado, de alto a baixo e de baixo a alto.
Aqueles que tiverem interesse em obter mais detalhes, remeto aos estudos que publiquei nos números 19 e 23 dos Travaux de Villard de Honnecourt, respectivamente sobre o nascimento do Regime Escocês Retificado e sobre a Estrita Observância.⁹
Doutrina e iniciação
Entretanto, antes de prosseguir, quero acabar de vez com um falso problema. Há maçons - encontro-os diariamente e, em todo caso, sempre que trato dessa questão - que se ofendem ao ouvir mencionar a existência de uma doutrina na Maçonaria e, às vezes, chegam até a recusar veementemente semelhante ideia. Isso ocorre porque esses bons irmãos desconhecem o verdadeiro significado desse termo, que confundem equivocadamente com o de «dogma».
O que significa, com efeito, a palavra doctrina? Consultemos o melhor dicionário latino, o de Gaffiot: doctrina significa: 1) ensino, formação teórica; 2) arte, ciência, teoria, método. Essa palavra está etimologicamente relacionada ao verbo doceo, ensinar. Doctrina é aquilo que é ensinado por um doctor, um ensinador, um mestre, àquele que, por esse mesmo processo, se tornará doctus, instruído, conhecedor, sábio.
Ora, como procede a Maçonaria? Certamente por meio da iniciação; mas também por meio do ensino. Toda a Maçonaria é constituída de ensinamentos. E, particularmente, a Maçonaria Retificada, na qual esse ensino é, de certa maneira, o fio condutor que orienta seus membros ao longo de todo o seu percurso iniciático.
É que o ensino ministrado ali possui uma natureza particular. Os diversos sistemas ou ritos maçônicos geralmente não são econômicos em ensinamentos sob a forma de advertências e conselhos relativos ao comportamento moral, social e, às vezes, também religioso de seus membros: um exemplo típico disso são as «exortações» do Rito de Emulação. No Retificado também encontramos isso, evidentemente. Mas há ainda algo mais.
Com efeito, o Regime apresenta a particularidade notável - e provavelmente única - de possuir uma doutrina própria da iniciação, explicitamente formulada e metodicamente ensinada, grau por grau.
Assim, ao mesmo tempo em que faz seus membros avançarem pelo caminho da iniciação, ele lhes transmite um ensinamento teórico, sob a forma de um discurso pedagógico, a respeito dessa mesma iniciação.
Esse ensino é transmitido por meio de «instruções» redigidas ne varietur, que acompanham os graus sucessivos e estão incluídas nos rituais destes; e sua leitura é indispensável. Pois, de outro modo, como seria possível tomar conhecimento da doutrina ali exposta: primeiro, conhecer sua existência e, depois, assimilá-la progressivamente?
Abster-se dessa leitura equivaleria, para um professor de ensino fundamental ou médio, a ignorar os programas e contar aos alunos aquilo que lhe viesse à cabeça. Ora, infelizmente, é isso que ocorre em numerosas lojas.
Isso é ainda mais prejudicial porque essa doutrina da iniciação, longe de ser simplesmente um objeto de curiosidade retrospectiva, uma espécie de excentricidade, possui para cada um de nós um interesse direto e sempre atual.
Com efeito, esse ensinamento sobre a natureza e a história da iniciação é inseparável de um ensinamento sobre a natureza do homem e sua história - ficando bem claro que essa história contada pelo Regime não é a história dos fatos da civilização, como, por exemplo, a história da arquitetura ou da arte da geometria, como ocorre nas Old Charges ou ainda nas Constituições de Anderson; trata-se da história da «condição humana», para retomar a expressão de André Malraux, ou, mais precisamente, das vicissitudes que afetaram essa condição em razão e na sequência das transformações ocorridas no próprio ser do homem.
Em suma, trata-se de uma história ontológica, de uma história metafísica, ao mesmo tempo que física.
Desde que as ideias de Guénon alcançaram até mesmo aqueles que não o leram, isso parece evidente. Mas, acreditem em mim, no século XVIII isso constituía uma inovação completa.
Sem dúvida, todo homem impregnado pela cultura cristã estava imbuído da ideia, transmitida por toda a tradição cristã, da Queda do homem, pois é disso que se trata.
Mas não creio estar equivocado ao afirmar que era a primeira vez que se estabelecia uma relação necessária entre a Queda do homem e a realização do processo iniciático.
Os Quatro Ensinamentos da Doutrina Retificada
Explico-me. O que nos ensina aquilo que, para abreviar, chamarei de doutrina retificada?
1. O homem foi criado à imagem e à semelhança divinas e, no «estado primitivo glorioso» que então lhe pertencia, gozava da imortalidade e da perfeita bem-aventurança, porque estava em «comunicação» direta e constante com o Criador, «em unidade» com Ele, dizem nossos textos.
É isso que exprime o adjetivo «glorioso», que deve ser entendido no sentido pleno que possui nas Escrituras, nas quais a «glória» manifesta a presença imediata e luminosa de Deus.
Recordo-lhes, de passagem, que, em toda a Maçonaria, a palavra glória possui esse sentido: para todo maçom, trabalhar «À Glória do Grande Arquiteto do Universo» significa trabalhar na presença de Deus Criador.
Assim, o homem primordial, revestido da luz divina, isto é, participante das «virtudes e poderes que estão na essência divina» (aquilo que a teologia ortodoxa denomina «energias incriadas») - participando delas sem ser ele próprio, é importante observar, de essência divina - tinha por destino ser o rei deste universo criado por Deus.
2. Esse homem, por uma decisão de sua livre vontade, afastou-se e separou-se de seu Criador e, portanto, caiu. Em consequência, perdeu a semelhança divina. Entretanto, a imagem divina nele permanece inalterada, porque a marca de Deus é inalterável.
Essa imagem foi deformada, tornou-se disforme, e é isso que simboliza a passagem do Oriente ao Ocidente, da luz às trevas, da unidade à multiplicidade: em suma, Adão expulso daquele lugar de luz e de completa paz (pax profunda) que era o paraíso terrestre - e compreendam bem que o paraíso terrestre, na realidade, não é um lugar, mas um estado de ser.
Esse homem separado de sua origem, que é Deus, de seu «verdadeiro Oriente», Willermoz, seguindo Martines, chama de homem «em privação». E essa privação é absoluta.
Ela acarreta uma dupla punição, punição exigida pela justiça divina, mas à qual o próprio homem se condenou.
A primeira é que o homem já não está «em unidade» com Deus, em comunicação imediata e constante com Ele. É isso que nossos textos designam como «morte intelectual»; entendendo-se que, na linguagem da época, intelectual significa espiritual, incorpóreo¹⁰: diríamos hoje que o homem decaído encontra-se em estado de «morte espiritual».
Mas ele incorreu ainda em uma segunda punição. A radical mutação ontológica que a queda do homem provocou nele manifesta-se também pelo fato de que o corpo glorioso de que estava inicialmente revestido, corpo de luz, «corpo espiritual» (como diria Henry Corbin), transformou-se em um «corpo de matéria sujeito à corrupção e à morte».
Desse modo, condenado à morte espiritual, ele também está condenado à morte corporal.
Nesse estado, encontra-se agora dotado de uma dupla natureza: sua natureza espiritual, pela qual permanece imagem de Deus e que conservou; e a natureza «animal corpórea» que sua queda lhe trouxe e que o assimila aos «animais terrestres».
E ele está submetido a terríveis sofrimentos.
Como ser espiritual, aspirando por toda a sua natureza à unidade com Deus, sofre indescritivelmente com sua ruptura com Ele.
Como ser animal, tornou-se escravo das sensações e necessidades físicas e joguete das forças e dos elementos materiais.
Finalmente, como ser duplo, simultaneamente espiritual e animal, é dilacerado e despedaçado pelo antagonismo entre as aspirações e tendências contrárias de suas duas naturezas.
Trágica é, portanto, a condição atual do homem.
3. Entretanto, o Regime Retificado nos ensina que essa privação absoluta, que segundo a justiça divina deveria ser definitiva, na realidade não o será, em razão da intervenção da misericórdia ou clemência divina, que se manifesta assim que o homem se arrepende.
Ora, arrepender-se é voltar-se para si mesmo, é retornar. É afastar-se das trevas e voltar novamente o rosto para «o Oriente onde se encontra a luz». É colocar-se em condições de retornar à sua fonte, à sua origem.
Então, o trabalho da iniciação torna-se possível.
Pois a iniciação é um dos meios proporcionados pela misericórdia divina - e isso desde imediatamente após a queda - para permitir ao homem recuperar seu estado original, restabelecendo nele a semelhança à imagem divina, restaurando nele a conformidade do tipo com o protótipo, do homem com Deus.
Nossos textos são absolutamente formais quanto a esse ponto; citarei alguns breves trechos:
«Se o homem tivesse permanecido na pureza de sua primeira origem, a iniciação jamais teria ocorrido para ele, e a verdade ainda se ofereceria sem véu aos seus olhos, pois ele havia nascido para contemplá-la e para prestar-lhe uma homenagem contínua¹¹.»
«A Franco-Maçonaria, quando devidamente meditada, recorda-vos incessantemente e por todos os meios de vossa própria natureza essencial. Ela busca constantemente aproveitar as ocasiões para fazer-vos conhecer a origem do homem, sua destinação primitiva, sua queda, os males que dela resultaram e os recursos que a bondade divina lhe proporcionou para triunfar sobre eles¹².»
É por isso que, como se diz em outro lugar, o «verdadeiro, o único objetivo das iniciações» é «preparar» os adeptos para «(descobrir) a única via que pode conduzir o homem ao seu estado primitivo e restabelecê-lo nos direitos que perdeu».
Texto que deve ser aproximado daquele em que Louis-Claude de Saint-Martin (discípulo, assim como Willermoz, de Martines) expõe que o objetivo da iniciação «é anular a distância que existe entre a luz e o homem, ou aproximá-lo de seu princípio, restabelecendo-o no mesmo estado em que se encontrava no princípio»¹³.
Creio que agora vocês percebem em que consiste essa relação necessária entre a queda do homem e a iniciação de que falei anteriormente.
A iniciação é uma consequência da queda: consequência não fatal, mas providencial; não obrigatória, mas desejada pela misericórdia divina para combater essa queda e anular seus efeitos.
É um auxílio da Providência ao homem, que jamais lhe faltou ao longo de toda a sua história. É por isso que as formas sucessivas assumidas pela iniciação ao longo dos tempos - e a Maçonaria é uma delas - estiveram em correspondência com as vicissitudes temporais do homem, continuamente lançado entre a recaída e o arrependimento.
E vocês percebem também, ao mesmo tempo, não apenas a utilidade, mas a necessidade de um ensinamento associado à iniciação.
Ele se destina a fazer com que o homem tome consciência, de um lado, de seu estado presente e, de outro, do estado que era o seu na origem e que pode voltar a ser o seu ao final.
O objetivo é evidente: produzir no homem - no iniciado - uma mudança de estado de consciência, de modo a tornar possível a mudança de estado de ser que o trabalho iniciático deve realizar.
Ambos - estado de consciência e estado de ser - estão ligados.
Esse é o sentido desta fórmula de Joseph de Maistre, em seu Mémoire au duc de Brunswick:
«O grande objetivo da Maçonaria será a ciência do homem¹⁴.»
Releiam agora, na perspectiva que acabo de lhes apresentar, os rituais dos graus sucessivos do Regime e as instruções que eles contêm.
Vocês descobrirão então, caso ainda não o tenham constatado, que a ação ritual se desenvolve simultaneamente e em continuidade, de grau em grau e também no interior de cada grau, desde o grau de aprendiz, em três planos em constante correspondência:
o passado, o presente e o futuro;
a origem e a destinação primeiras do homem, seu estado atual e seus fins últimos;
o homem primitivo glorioso, o homem presente decaído e o homem futuro restaurado em sua glória.
É por isso que o ritual gira em torno do tema da construção do Templo, de sua destruição e de sua reconstrução, que é a transposição, em modalidade construtiva, do tema da semelhança à imagem, sucessivamente perdida e depois reencontrada; pois, em última análise, o Templo não é outra coisa senão o homem.
Vocês verão também como, etapa após etapa, segundo uma progressão pedagógica perfeitamente organizada, as instruções transmitem um ensinamento cada vez mais aprofundado e, simultaneamente, retomam, aprofundando-o, o ensinamento anteriormente transmitido.
Mas não nos enganemos: tudo está indicado desde o princípio.
Assim, àquele que ainda não é aprendiz, mas um candidato submetido às provas preliminares à sua recepção, é transmitida a «primeira máxima da Ordem», máxima que deverá meditar durante toda a sua vida:
«O homem é a imagem imortal de Deus; mas quem poderá reconhecê-la, se ele próprio a desfigura¹⁵?»
Por outro lado, a Regra Maçônica, entregue para estudo a todos os aprendizes, adverte-os:
«Se as lições que a Ordem te transmite para facilitar o caminho da verdade e da felicidade se gravarem profundamente em tua alma (...); se as máximas salutares, que marcarão, por assim dizer, cada passo que deres na carreira maçônica, se tornarem teus próprios princípios e a regra invariável de tuas ações; ó meu irmão (...), cumprirás teu sublime destino, recuperarás essa semelhança divina que foi o quinhão do homem em seu estado de inocência, que é o objetivo do cristianismo e da qual a iniciação maçônica faz seu principal objeto¹⁶.»
Creio que agora vocês percebem quão grave é abrir mão dessas instruções fundamentais que a Ordem nos transmite.
4. Há um quarto ensinamento, pelo qual concluirei, pois, dentre todos, é o mais essencial.
Esse restabelecimento, essa reintegração em seu «estado primitivo» e nos «direitos que perdeu», pode o homem realizá-la por si mesmo?
Absolutamente não.
Isso significaria, de sua parte, tornar-se culpado de uma empreitada orgulhosa semelhante àquela que provocou sua queda original.
Essa reintegração, isto é, esse retorno à integridade primeira, exige a mediação de um ser que, à semelhança do homem, seja dotado de uma dupla natureza: de um lado, espiritual; de outro, corporal. Contudo, diferentemente do homem atual, cujas duas naturezas estão ambas «corrompidas» pela queda, nesse ser ambas se encontram no estado de pureza, inocência e gloriosa perfeição em que originalmente se encontravam no homem.
Todos vocês compreendem de quem se trata e quem é aquele que nossos textos denominam o «divino Mediador». Quanto à sua identidade, eles são perfeitamente explícitos:
«Todas as relações entre a misericórdia divina e os culpados haviam sido destruídas, e a atual desgraça do homem seria indescritível se essa misericórdia não tivesse empregado então um Reparador infinitamente poderoso para reerguer o homem de sua funesta queda e restabelecê-lo em sua primeira destinação. Vocês não ignoram quem foi o Reparador. E quem outro, com efeito, senão um ser Deus e divino poderia subjugar o poder daquele que havia subjugado o homem?
Logo após o crime do homem, esse poderoso agente veio manifestar sua ação vitoriosa sobre os culpados no templo universal; manifestou-a especialmente no tempo, em favor da posteridade do homem e para vergonha de seu inimigo, unindo sua Divindade à humanidade; enfim, não cessa de manifestá-la em todas as regiões do universo.
Eis, meu querido irmão, os auxílios divinos e eficazes que o homem, por seu arrependimento, transmitiu à sua posteridade, e dos quais ninguém pode participar se não agir em nome e em unidade com esse Agente reconciliador universal¹⁷.»
Eis por que, ao término da iniciação maçônica, aquilo que o Regime Retificado proporciona a seus membros para contemplação não é um renascimento, mas a ressurreição.
(Aqui farei uma digressão. Revelar, ao término da iniciação, a ressurreição do Cristo não é exclusividade do Regime Retificado; isso pode ser encontrado em outros sistemas, tanto franceses quanto ingleses. A particularidade deste Regime, contudo, está em inseri-la em uma perspectiva metafísica e ontológica tão coerente, tão forte e concretamente aplicável ao homem.)
Eis também por que, tendo chegado a esse termo, o Templo, sucessivamente construído, destruído e depois reconstruído, desaparece, assim como desapareceu o Templo de Salomão, e o resultado final é a Jerusalém celeste, a Cidade Santa, onde já não há Templo, pois, como está dito no Apocalipse (21,22):
«O Senhor Deus Todo-Poderoso é o seu Templo, assim como o Cordeiro.»
Com efeito, não nos esqueçamos: o Templo que verdadeiramente nos diz respeito é o homem; e a realização última do homem é a identificação com o «Templo não feito por mãos humanas»: o Cristo ressuscitado.
Eis, finalmente, em que consiste o fato de que «a Ordem é cristã», e não apenas impregnada de um vago cristianismo. Eis por que ela só pode admitir cristãos, isto é, homens que tenham fé em Cristo.
Essa seleção ou eleição - como se queira chamá-la - não obedece a nenhum outro motivo senão à necessidade metafísica que mencionei anteriormente.
Isso porque a iniciação tal como foi concebida por Willermoz, segundo os ensinamentos de Martines, e que nos foi legada, não funciona de outra maneira, nem pode funcionar de outra maneira; e porque, para retomar uma passagem já citada, ela constitui um «auxílio divino e eficaz (...) do qual ninguém pode participar se não agir em nome e em unidade com esse Agente reconciliador universal», que é Cristo.
Ora, como agir em nome e em unidade com Cristo se não se tem fé n’Ele?
Esse é o esoterismo cristão que os maçons retificados vivem e do qual vivem. Essa é a concepção que o Regime Retificado possui, há mais de dois séculos, da iniciação e que ele coloca em prática.
Naturalmente, eu adiro a ela, pois, como anunciei desde o início, sou eu mesmo um maçom retificado.
Igualmente evidente, não pretendo fazer dela um modelo universal, um molde ao qual todos os maçons deveriam obrigatoriamente se conformar, e não desconheço as dificuldades que ela pode apresentar aos não cristãos.
Dificuldades que, aliás, não devem ser superestimadas, pois, afinal, o Regime legisla apenas para seus membros, e cada um é livre para nele ingressar ou não; isso sempre foi assim, desde a época de Willermoz até os nossos dias.
Mas, se alguém nele ingressa, é a isso que deve aderir.
O que afirmo, por experiência própria, é que essa doutrina da iniciação maçônica, intrinsecamente ligada à natureza e à destinação do homem, em perfeita concordância com o cristianismo que lhe é connatural, permite àquele que a ela adere viver a plenitude do processo iniciático na plenitude da fé.
E essa perfeita harmonia é fonte de grandes alegrias.
Esse é o testemunho que eu queria transmitir a vocês.
8 de outubro de 1993
Notas:
Constituições de Anderson, Paris, Lauzeray International, 1978: trad. francesa de Daniel Ligou (modificada).
Eric Ward, «A Maçonaria de Anderson, não deísta», in Ars Quatuor Coronatorum, vol. 80, 1967, pp. 36-57.
Não devemos esquecer que o levante jacobita de 1715, com um desembarque do Pretendente, havia provocado um recrudescimento do ódio entre as facções religiosas.
Escritos maçônicos de Joseph de Maistre, Genebra, Slatkine, 1983, p. 97. Maistre cita um verso de Louis Racine (A Religião, Canto III, v. 36).
Bernard Jones, Guia e Compêndio dos Maçons (Londres, Harrap, nova ed. 1956), pp. 207-208.
A tradução exata do termo grego Anatolè é «Levante», expressão há muito utilizada para designar o Oriente Próximo. As «escalas do Levante» eram os portos (escalas) aos quais a Sublime Porta (isto é, o governo de Istambul) havia concedido privilégios aos comerciantes franceses.
Cahier Vert nº 13, 1993, pp. 115-134.
Pierre Chevallier, História da Maçonaria Francesa, Paris, Fayard, 1974, t. I, pp. 24 e seguintes.
Pode-se também consultar meus dois artigos no Dictionary of Gnosis & Western Esotericism (cf. bibliografia), que relatam a vida de Martines de Pasqually e descrevem sua doutrina.
Assim, os anjos são «seres intelectuais».
Instrução secreta aos Grandes Professos, I, 1 (edição privada).
Ritual de Mestre Escocês de Santo André, edição do Grande Priorado das Gálias, 1997, p. 65.
L. C. de Saint-Martin, Obras principais, t. II, Georg Olms Verlag, 1980, p. 235 (cf. bibliografia).
J. de Maistre, Escritos maçônicos, Genebra, Slatkine, 1983, p. 97.
Ritual de Aprendiz do Grande Priorado das Gálias, 2004, p. 45.
Ibid., p. 86.
Instrução secreta aos Grandes Professos, II, 45 a 47 (edição privada).
I.C.J.M.S. Que a Ordem Prospere!




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