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A Cruz Antes da Luz: A verdadeira Theosis no Rito Escocês Retificado e na Tradição Cristã

  • Foto do escritor: Primeiro Discípulo
    Primeiro Discípulo
  • 16 de mar.
  • 6 min de leitura

A experiência maçônica cristã, especialmente no âmbito do Rito Escocês Retificado (RER), deveria ser — e em seu âmago realmente é — uma via de retorno à fonte, um caminho sagrado de reintegração do homem decaído à imagem divina perdida. No entanto, é necessário afirmar com clareza que essa via está cada vez mais ameaçada por leituras superficiais, místicas deformadas e interpretações contaminadas por elementos gnósticos ou esotéricos heterodoxos. De maneira particular, vem se disseminando, entre alguns maçons retificados, uma ideia absolutamente equivocada de que, à medida que “evoluem” pelos graus da Ordem, estão se tornando “deuses” — como se o percurso iniciático retificado fosse um processo de divinização ontológica por mérito próprio ou por auto aperfeiçoamento espiritual.


Essa concepção, além de não encontrar respaldo na doutrina cristã, configura uma verdadeira heresia, reeditando o erro original da serpente no Éden: “sereis como deuses” (Gn 3,5). Tal pretensão está enraizada na soberba espiritual, e não na humildade evangélica que conduz à verdadeira comunhão com Deus. A Theosis — sim, a deificação verdadeira, legítima e ortodoxa — não é essa caricatura mística que alguns promovem; ela é, antes, o processo pelo qual o homem, pela graça e por Cristo, participa das energias divinas, sem jamais confundir-se com a essência do Criador. Trata-se da vocação original do homem, restaurada pelo mistério da Encarnação, Paixão e Ressurreição do Verbo.


Tal doutrina, tão cara à patrística oriental, foi articulada com precisão por São Gregório Palamas, doutor da Igreja Ortodoxa, ao distinguir entre essência e energias divinas. Deus, em Sua essência, permanece absolutamente inacessível; mas em Suas energias — isto é, nas graças, dons e operações divinas — Ele se comunica ao homem, transfigurando-o sem corromper sua natureza criada. Essa participação, longe de ser uma evolução autônoma, é o fruto da purificação interior, da vida sacramental, da ascese e, sobretudo, da conformidade ao Cristo crucificado. Como diz São Pedro: “para que vos torneis participantes da natureza divina” (2Pe 1,4).


Essa teologia é o fundamento do Rito Escocês Retificado, cuja estrutura iniciática espelha o processo espiritual da katharsis (purificação), photisis (iluminação) e henosis (união). Jean-Baptiste Willermoz, inspirado pelos ensinamentos dos Elus Cohen (amplamente cristianizados por ele após a morte de M. de Pasqually) e pela tradição mística cristã, compreendeu que a iniciação só pode ser autêntica se conduz o homem à restauração de sua semelhança com Deus. A figura do Divino Reparador — título atribuído por Willermoz a Cristo — é o centro gravitacional da espiritualidade retificada. Em sua doutrina, ele sustenta com veemência que o homem caído não pode salvar-se por si mesmo, mas precisa ser redimido pelo Verbo encarnado. Todo esforço iniciático, por mais nobre que seja, é estéril sem a ação da graça divina.


Teóricos do Rito Retificado, como Jean-François Var, ressaltam com lucidez que o RER não propõe um esoterismo paralelo ao cristianismo, mas sim uma leitura simbólica e iniciática da própria doutrina cristã. Seguindo sua linha de raciocínio, compreendemos que “a theosis é o fim último do percurso retificado, mas somente como fruto da graça recebida em Cristo, e não como conquista do intelecto ou do ego espiritual”. Var adverte contra as tentações gnósticas que rondam os sistemas iniciáticos, e enfatiza que o Divino Reparador não é apenas um arquétipo simbólico, mas uma presença real e pessoal que conduz o iniciado à comunhão com Deus.


Eduardo Calley, em suas muitas reflexões sobre o Rito Retificado, aprofunda essa perspectiva ao analisar os graus simbólicos de Aprendiz e Companheiro. Para ele, esses graus representam não uma preparação técnica para graus superiores, mas o início de uma verdadeira reforma da alma, com base na virtude cristã. O Aprendiz deve aprender a obedecer e silenciar suas paixões; o Companheiro, por sua vez, é chamado à interiorização, ao discernimento e ao serviço. Calley insiste que “o trabalho simbólico só é eficaz se estiver enraizado numa espiritualidade real, cristã e sacramental”.


Já o grau de Mestre marca, no itinerário do RER, a travessia da iluminação. Pascal Gambirasio D'Asseux, em "El Rito Escocés Rectificado: Un camino de vida cristiana", analisa esse grau à luz da tradição esotérica cristã. Para ele, o Mestre é o iniciado que entra na experiência da iluminação espiritual, simbolizada pela morte ritual e pelo renascimento espiritual. O autor ressalta que essa iluminação não é um despertar do "eu divino", mas representa um processo de interioridade espiritual característico da via iniciática ocidental. A morte simbólica, portanto, não é mera alegoria: é uma conversão radical da alma, análoga à kenosis de Cristo - o esvaziamento de si mesmo que ressoa na visão de Willermoz, onde o Verbo sustenta e fortalece a humanidade. Esta abordagem encontra paralelos com a tradição hesicasta, sistema espiritual contemplativo que busca a união com Deus através da quietude interior e da oração contínua.


Nos graus superiores da Ordem — poderíamos destacar aqui o grau de Grande Professo, ainda que ele não exista nas potências reconhecidas pela UGLE  — a vocação cristã alcança sua expressão mais elevada através da busca da união com Deus. Esta tradição iniciática, conforme estudos contemporâneos sobre o Rito Escocês Retificado, compreende o membro de tais graus como aquele que cultiva uma dedicação espiritual profunda, caracterizada pela renúncia às vaidades mundanas e à ilusão de controle espiritual. Este caminhante espiritual seria frequentemente descrito, na literatura especializada sobre os ritos maçônicos cristãos, como alguém que vive os princípios de oração, penitência e caridade, funcionando simbolicamente como uma espécie de "monge no mundo" — alguém que, embora inserido na sociedade, mantém um compromisso contínuo com os valores espirituais e com a vontade divina.


E é justamente neste ponto que se torna urgente denunciar as falsas leituras da Theosis no meio retificado. Todo discurso que promove a auto-divinização do iniciado, como se ele pudesse tornar-se deus por méritos próprios, não passa de um eco do orgulho luciferino. Essa mentalidade contraria frontalmente os ensinamentos dos Padres da Igreja. Como advertia São João Cassiano, “o maior perigo do monge é achar-se santo antes de sê-lo; e o maior obstáculo à graça é o orgulho espiritual”. A verdadeira theosis nasce da humildade, não da exaltação do eu. A cruz é o caminho da luz.


A confusão entre deificação cristã e divinização ontológica autônoma precisa, portanto, ser desfeita com clareza e firmeza. A tradição cristã — tanto patrística quanto litúrgica — jamais afirmou que o homem se torna “Deus” em essência. Pelo contrário, sempre preservou a distinção entre Criador e criatura, mesmo na mais elevada união mística. O homem não se torna um novo ser divino, mas é transfigurado à imagem do Verbo. A semelhança com Deus, perdida pelo pecado, é restaurada pela graça e pela conformidade ao Cristo crucificado.


Por isso, torna-se necessário recuperar, no seio da maçonaria cristã, o sentido autêntico da imitatio Christi. A verdadeira espiritualidade retificada não visa exaltar o homem, mas humilhá-lo piedosamente diante de Deus, para que seja exaltado pela graça. Não se trata de conquistar graus, mas de morrer para o mundo. Não se trata de ascender por mérito, mas de descer com Cristo até as profundezas da própria miséria, para que ali floresça a vida nova. A cruz precede a luz. A humildade precede a glória. O servo fiel é o verdadeiro iniciado.


Abaixo segue tabela que proporciona uma visão clara das semelhanças e diferenças nos entendimentos da Theosis (deificação) nas principais tradições cristãs, destacando o papel da graça e a distinção entre Criador e criatura.



Notas de Contexto:


  • Rito Escocês Retificado (RER): Enfatiza a graça divina no processo de restauração espiritual, com forte foco na humildade, justiça, clemência, beneficência e Cristo como Grande Reparador. A deificação (Theosis) é vista como uma participação nas energias divinas, não como a ascensão do homem a um nível divino em essência, o que reflete uma leitura cristã ortodoxa mais rigorosa.

  • Tradição Ortodoxa Oriental: Apresenta a Theosis como o fim último da vida cristã, em que o homem se torna participante das energias divinas, mas sem confundir-se com a essência divina. A ortodoxia oriental se destaca pela ênfase na purificação e ascese, alinhada à mística hesicasta.

  • Tradição Católica Romana: Enquanto também admite a transformação pela graça e participação na vida divina, a Theosis não é tão central quanto na Ortodoxia. A santificação e a justificação ocupam mais destaque teológico, com foco na participação nos sacramentos.

  • Tradição Protestante: A deificação é rejeitada em muitas correntes protestantes, que enfatizam mais a justificação pela fé e a santificação como aspectos essenciais da vida cristã. O conceito de Theosis não é uma doutrina formal dentro da teologia protestante.


I.C.J.M.S. Que Nossa Ordem Prospere !

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