top of page

Um Pouco Mais Sobre Wilhelmsbad

Foto do escritor: Primeiro DiscípuloPrimeiro Discípulo

Atualizado: 31 de jan.

O texto que trazemos a seguir é um extrato da obra "La Stricte Observance Templière : Une Élite Européenne Au Siècle Des Lumières", de André Kervella. Livro que recomendamos fortemente por trazer uma análise profunda da história da Estrita Observância Templária, destacando o papel desempenhado pela elite europeia iluminista no desenvolvimento e nas tensões internas deste movimento maçônico. Kervella examina as complexas dinâmicas de poder, as interações entre os principais protagonistas e as transformações doutrinárias que ocorreram no contexto da Maçonaria no século XVIII. Através desse estudo, ele ilumina as contradições e os conflitos que marcaram o período, oferecendo uma visão crítica sobre suas figuras chave, Willermoz por exemplo, e as implicações de suas ações para o surgimento do Rito Escocês Retificado e suas conexões com a tradição templária.


As linhas que se seguem revelam um pouco dos bastidores do Convento de Wilhelmsbad, crucial evento na história da Maçonaria do século XVIII e na história do RER. Este momento foi marcado por profundas tensões e disputas internas não sendo, nem de longe, o "caramelo adocicado" que muitos maçons retificados gostam de imaginar ter sido.


Mas vamos ao texto:


A preparação do convento de Wilhelmsbad respeita o costume que consiste em dirigir, com vários meses de antecedência, uma convocatória a todos os Capítulos provinciais, provida de uma ordem do dia sumária, a fim de que esses capítulos discutam a mesma e escolham os seus deputados, provendo-os de um poder ad hoc. Em cada um desses Capítulos, o resultado das discussões é consignado num documento denominado notificação e enviado ao secretariado encarregado da organização. Trata-se de dar forma às observações e reflexões que poderiam inspirar os debates. Os pontos considerados importantes, no interesse geral, podem ser livremente adicionados.


A circular que inicia o processo estava datada de 8 de outubro de 1779 e assinada por Ferdinand de Brunswick "Grão-Mestre eleito das Lojas Reunidas". Ainda não menciona explicitamente a possibilidade de um convento, mas é seguida de várias outras circulares, esclarecedoras ou complementares, que conduzem ao mesmo.


A primeira circular foi dirigida exclusivamente aos Mestres titulares das Grandes Lojas Escocesas. Brunswick afirma isso de forma explícita. Contudo, tem a intenção de se manifestar sobre o funcionamento da Ordem como um todo. Em nenhuma parte é mencionado que ele age com o consentimento de Sudermania, seu superior institucional. Sem dedicar uma única palavra à memória do barão de Hund, ele também recorda que suas funções atuais lhe foram atribuídas em 1772. Isso, no entanto, não o impede, assim como qualquer outro Irmão, de expressar uma opinião pessoal; porém, desde já, ele levanta a questão de sua autoridade, antecipando possíveis acusações. Brunswick insiste, primeiramente, em um argumento que não é nada original: lamenta que as Lojas sob sua direção cedam, por vezes, à indisciplina e admitam membros de moralidade questionável. Essa é uma velha queixa, conhecida há muito tempo em diversos Orientes; e a ideia de realizar uma depuração é recorrente. Por exemplo, na década de 1730, tanto em Londres quanto em Paris, os ecos desse mal-estar motivaram a ironia de jornalistas, que se apressaram a amplificá-los. Portanto, no final da década de 1770, essas críticas não se referiam exclusivamente à Estrita Observância, mas à Maçonaria em geral. Embora a sabedoria seja proclamada com fervor, muitos Irmãos a ridicularizam.


Brunswick considera, contudo, que sua própria imagem está sendo prejudicada, a ponto de questionar seu interesse em prorrogar seu mandato. Ele está em seu direito. No entanto, mantém deliberadamente a confusão ao se declarar líder de toda a sociedade [1]: 


"Dou-lhes a refletir: será que os julgamentos desfavoráveis que a parte sensata do público possa formar sobre a Maçonaria não devem necessariamente me afetar como líder de toda a sociedade?"


Essa última expressão não é realmente apropriada se comparada ao título de Grão-Mestre apenas das Lojas Escocesas. O duque cumpre seu papel ao convidar os Mestres instalados a refletirem sobre os meios para serem mais rigorosos nas recepções de neófitos e afastarem possíveis "indignos" já recebidos. Ele também cumpre seu papel ao exortar as Lojas a praticarem mais a beneficência. Contudo, ultrapassa os limites ao infringir as prerrogativas do Visitador Geral da Ordem.


As reações dos destinatários sobre este ponto foram tão rápidas que ele se viu obrigado a distribuir uma segunda circular no dia 1º de novembro. Vale a pena refletir sobre os matizes que ele introduz a seguir: a circular anterior foi dirigida "aos presidentes das grandes [lojas] escocesas e não aos de ✠✠ (SIC) [capítulos] inteiros, nem aos cavaleiros, muito menos às [lojas] que trabalham nos graus simbólicos. [2]" E isso é o que ele está fazendo novamente agora. No entanto, persiste em questionar a situação da Estrita Observância como um todo, chegando até a considerar que a Ordem Interior se tornou excessivamente inflada e que, entre seus membros, alguns não sabem manter reserva sobre o que ali se faz. Seu desejo pessoal é que se realize uma reflexão sobre o futuro da Ordem e, entre outras coisas, sobre o vínculo com a cavalaria templária de outrora. Deveríamos continuar afirmando publicamente que a restauraremos? "Esse nome de Templários poderia ser mantido, mas em privado entre nós, e não como um objetivo. [3]" Sabendo que os Cavaleiros não são os destinatários da circular, conforme a restrição explícita anterior, Brunswick se mostra, no mínimo, ambíguo. Os principais interessados estão excluídos de antemão da consulta em andamento.


Brunswick mantém a ambiguidade em uma terceira circular datada de 19 de setembro de 1780. Desde as primeiras linhas, ele reitera sua preocupação com o futuro da Ordem como um todo. Deseja que ela seja "respeitável aos olhos do público, útil para a humanidade e para seus próprios membros". Ele lamenta as flagrantes incoerências entre seus princípios e seus objetivos. No entanto, mais uma vez restringe os destinatários às lojas escocesas, às quais solicita suas opiniões.


"Nos resta ainda um meio para salvar a Ordem, dando-lhe uma forma mais adequada ao nosso tempo e aos nossos costumes, reduzindo-a aos seus verdadeiros princípios e conduzindo a barca a um porto seguro, quero dizer, uma assembleia geral e fraterna de todas as Lojas Escocesas. [4]"


As últimas palavras são sublinhadas por ele mesmo. Na esperança de que uma investigação bem conduzida permita decidir definitivamente sobre a origem da Ordem, sua legalidade, sua finalidade, sua publicidade, seu sistema administrativo, suas cerimônias, seus ritos, seus segredos e as relações que deve manter com outras potências maçônicas, ele elabora uma lista de perguntas relacionadas a esses temas, pedindo aos destinatários que respondam àquelas que considerem particularmente importantes. O qualificativo "Templário" continua a parecer-lhe questionável, assim como a referência aos Superiores Desconhecidos.


O nome de Sudermania não aparece mencionado no texto, nem o de Hund, nem sequer com a deferência de uma simples lembrança. Em vez disso, considera-se a realização de uma reunião privada com Willermoz em Hamburgo, da qual Charles de Hesse também participaria. No entanto, devido à falta de recursos financeiros suficientes, após uma significativa queda de receita que quase o levou à falência, o lionês não consegue arcar com os custos da viagem, e a reunião é cancelada [5].


Contrariamente às suas expectativas, Brunswick obteve poucas respostas rápidas. A situação não é tão alarmante quanto ele esperava. Em 13 de fevereiro de 1781, apenas os Irmãos de Varsóvia e da Dinamarca haviam lhe escrito. De outros pontos, nada recebeu. Ele lamenta isso em uma carta muito breve de relançamento, o que leva à quarta circular. Em junho, parece ter recebido contribuições interessantes, o que lhe permitirá conceber uma quinta circular para reformular certas observações ou hipóteses de trabalho.


Em termos gerais, sua opinião pessoal é que a maçonaria transmite um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos que se mantiveram inalterados ao longo dos séculos, mas que as formas e os meios para expressá-los podem mudar conforme os tempos. Com base nessa distinção, o problema que se coloca é saber de que maneira a Estrita Observância da segunda metade do século XVIII oferece uma expressão relevante. Como se fosse uma letania na circular de convite ao convento, ele acentua, então, as críticas já conhecidas. Em vista disso, entendemos que seu objetivo declarado é, de fato, pôr fim a um sistema do qual ele faz parte há muito tempo.


“Embora seja verdade, Irmãos meus, que a essência da maçonaria e os conhecimentos que ela encerra são inalteráveis, não é menos verdade que os símbolos desses conhecimentos foram alterados de várias maneiras. Também é certo que os laços de nossa Sociedade foram enfraquecidos, que o amor fraterno desapareceu, que o espírito de dominação substituiu o espírito de concórdia, que o amor próprio afastou o desejo de perfeição e que o interesse pessoal tem guiado nossas ações. A prática das virtudes maçônicas se reduziu a vãs declamações desmentidas pelos fatos, que a Beneficência, essa virtude inerente à Maçonaria, foi negligenciada ou exercida por motivos estranhos ao espírito da Ordem, que a Ordem se viu sobrecarregada por uma multitude de indivíduos de conduta reprovável, sem que houvesse cuidado suficiente para torná-los melhores (um dos objetivos proclamados da Maçonaria), que a aceitação de pessoas fez desprezar Irmãos virtuosos, embora desfavorecidos pela fortuna, que o falso orgulho usurpou o nome do verdadeiro zelo, e que a intolerância ergueu altar contra altar. [6]”


[Nota do Blog Primeiro Discípulo: O que até aqui foi dito, especialmente sobre o lamento do Duque de Brunswick acerca da admissão de membros de “moralidade questionável” nas fileiras da Estrita Observância Templária (EOT), atribuída à negligência e à falta de rigor na seleção de candidatos, expõe involuntariamente a própria fragilidade administrativa de sua gestão, uma vez que a responsabilidade última pela conduta das Lojas recaía sobre sua liderança. Como poderia ele estar isento de culpa, se as lojas sob sua direção foram as que admitiram tais indivíduos?


Esse tipo de crítica, no entanto, está longe de ser exclusivo do século XVIII. É lamentável constatar que os mesmos problemas identificados por Brunswick continuam a assolar as Lojas Maçônicas até os dias atuais. A admissão de indivíduos moralmente degenerados — absolutamente incompatíveis com os princípios proclamados pela ordem e com os princípios cristãos basilares ao RER — e a indisciplina que permeia suas atividades ainda são questões recorrentes. Frequentemente, as Lojas são dominadas por facções ou grupelhos que se consideram seus donos, transformando o espaço maçônico em arenas de interesses pessoais, mais preocupados em consolidar poder do que em promover os elevados ideais da Maçonaria.


Desde os seus primórdios, a Maçonaria enfrentou o delicado equilíbrio entre inclusão e a preservação de seus valores essenciais. No entanto, a aceitação de membros “indignos” compromete não apenas a integridade moral da Ordem, mas reduz sua missão a uma caricatura de si mesma. A disparidade entre os ideais proclamados e a prática cotidiana não é apenas um problema interno, mas uma fonte de escárnio ou desconfiança pública, como evidenciado já no século XVIII. Jornalistas e escritores da época, atentos às contradições das Lojas, transformaram seus fracassos em objeto de zombaria pública, expondo a inconsistência entre suas aspirações idealistas e as práticas reais. Edmund Burke, filósofo britânico crítico das sociedades secretas e das revoluções de sua época, destacou como a dissolução de valores éticos entre os líderes inevitavelmente compromete o caráter moral de qualquer organização. Para Burke, uma instituição que perde sua conexão com os valores que a fundamentam está fadada a tornar-se oca, incapaz de exercer influência positiva. Assunto que tratamos já em nosso espaço no artigo: “Aspectos Internos e Externos: Regenerando-se ou Praticando Cosplay?”


Do ponto de vista teológico (que interessa, sim, aos irmãos maçons cristãos), a admissão de pessoas moralmente reprováveis reflete um enfraquecimento do discernimento espiritual. A parábola do trigo e do joio (Mateus 13,24-30) nos oferece uma analogia pertinente: a tolerância indiscriminada de comportamentos reprováveis mina a integridade do grupo e permite que o mal prolifere ao lado do bem. Embora a paciência seja necessária no trato humano, o descaso deliberado com a disciplina interna compromete a capacidade de a Ordem realizar sua missão. Santo Agostinho, ao comentar essa passagem, sublinha que a paciência com os pecadores deve ser acompanhada por um esforço para orientá-los e corrigir seus caminhos, sob pena de se tolerar o erro em detrimento da verdade.


Além disso, do ponto de vista filosófico, a crítica de Brunswick e a realidade maçônica de sua época expõem um problema que Kant identificou como a tensão entre a razão prática e os interesses egoístas. Kant argumenta que a moralidade exige uma adesão incondicional ao dever, e qualquer concessão a interesses pessoais corrompe a universalidade das normas éticas. Quando os interesses individuais ou grupais prevalecem nas Lojas, a Maçonaria se afasta de sua vocação original, reduzindo-se a uma sociedade utilitarista, mais preocupada em atender a conveniências do que em cultivar virtudes.


A situação descrita também ecoa as advertências de Joseph de Maistre, que, embora tenha simpatizado com certos aspectos do ideal maçônico, não hesitou em apontar os perigos da corrupção interna em sociedades secretas. De Maistre acreditava que, sem um princípio transcendente que orientasse suas ações, as sociedades humanas estavam fadadas a cair em desordem e autoindulgência. Na ausência de um compromisso genuíno com a moralidade e a virtude, as Lojas Maçônicas enfrentam o risco de tornar-se simulacros de sua própria grandeza, incapazes de realizar suas promessas de sabedoria e fraternidade.


Esse contexto sublinha a necessidade urgente de uma reforma consciente e decidida nas Lojas. Apenas com um esforço genuíno de depuração rigorosa será possível resgatar a dignidade da Maçonaria, preservando sua relevância e reafirmando sua fidelidade aos princípios que proclama. A reforma deve ser mais do que superficial; deve atacar a raiz dos problemas, abordando tanto as práticas de admissão quanto a formação contínua dos membros, de modo a assegurar que os ideais maçônicos não sejam apenas proclamados, mas vividos. No caso do RER, deve-se ainda observar que sem uma adesão total do irmão ao mesmo Cristo que se entregou na cruz para nossa salvação o desastre é ainda pior.


Por fim, é importante destacar que, na ausência de tal reforma, a Ordem corre o risco de perpetuar uma imagem lamentável: a de uma instituição que proclama sabedoria e virtude, mas demonstra, na prática, total incapacidade de vivê-las. Como Burke e Maistre alertaram, a degeneração moral em qualquer organização não apenas enfraquece sua missão, mas a transforma em alvo de desprezo, prejudicando sua credibilidade perante o mundo. A Maçonaria, portanto, deve buscar na tradição filosófica e nos ideais éticos que a fundaram os recursos necessários para superar os desafios que a ameaçam desde os tempos de Brunswick até hoje.]


Inicialmente, a reunião estava prevista para Frankfurt. A mudança para Wilhelmsbad ocorreu em março de 1782, quando Brunswick afirmou que sua experiência lhe havia mostrado em várias ocasiões que “permanecer nas grandes cidades não era o mais vantajoso para as deliberações maçônicas, devido às diversas distrações que lá são inevitáveis. Os deputados frequentemente se distraem demais das questões importantes com as quais querem se ocupar." Portanto, espera que a seriedade e a diligência estejam muito melhor garantidas, longe das tentações urbanas.


Como o próprio nome indica, em alemão, Wilhelmsbad é uma cidade termal situada próxima a Hanau. Willermoz chegou ao local no dia 11 e consultou o duque de Brunswick e o príncipe de Hesse-Cassel. Ele também os recebeu na Ordem Cohën. No dia 15, ocorreu a sessão inaugural. Os primeiros dias foram dedicados a resolver questões protocolares propriamente ditas, como a verificação das cartas credenciais, a assinatura do juramento de sigilo, a definição de responsabilidades e funções, a distribuição em comissões de trabalho e a programação das assembleias plenárias. Em seguida, como planejado, ocorreram debates e tomadas de decisão até o dia 19 de agosto de 1782, intercalados por alguns dias de pausa recreativa.


Em princípio, cada Província deveria nomear três deputados. Sabendo-se que a 9ª Província, criada pelo duque de Sudermania, permanece em silêncio devido à sua retirada, as Províncias ativas em 1782 são cinco: Baixa Alemanha (7ª), Alta Alemanha e Itália (8ª), Auvergne (2ª), Occitânia (3ª) e Borgonha (5ª). Assim, o esperado seria que 15 Irmãos cooperassem.


Na prática, algumas províncias nomearam apenas um deputado, enquanto outras enviaram mais representantes. Como resultado, um total de 35 Irmãos esteve presente em Wilhelmsbad, embora nem todos tenham permanecido durante todo o tempo. Alguns chegaram atrasados, enquanto outros partiram antes do encerramento.


Ferdinand de Brunswick assumiu a presidência do convento. Contudo, uma questão intrigante surge: em que qualidade ele ocupava essa posição? No quadro nominativo impresso, lê-se que ele era Grão-Mestre Geral da Ordem. Porém, isso não corresponde à verdade. Este quadro foi elaborado fora de tempo. O duque só recebeu esse título durante o convento. Portanto, ele não era Grão-Mestre no momento da abertura do evento, tampouco durante os preparativos.


Foi necessário esperar até o dia 17 de agosto para que sua nomeação por consenso oral, sem eleição, fosse realizada de forma inequívoca, reduzindo-se a recordar as funções que lhe foram conferidas em Kohlo dez anos antes (Grande Mestre das Lojas Escocesas reunidas e Grande Superior da Ordem), para então nomeá-lo Grande Mestre Geral da Ordem. Ele mesmo faz nota dessa mudança, pois antes dessa data, ao assinar as atas diárias, utilizava a seguinte fórmula: in Ordine dictus Ferdinandus a Victoria, Eques Professus et Magister Superior Ordinis, enquanto depois passou a usar esta: in Ordine dictus Ferdinandus a Victoria, General-Grossmeister des Ordens. Como complemento cauteloso, a ata de 17 de agosto estipula que os deputados provinciais, no futuro, não devem se deixar impressionar por quem ainda lhes falar do Superior Desconhecido. É mais que provável que essa advertência tenha sido dirigida a Charles de Sudermania.


De qualquer forma, o consenso é relativo. Alguns dignitários, e não os de menor importância, se opõem à ideia de que o duque se torne Grande Mestre Geral. Não consideram que o convento esteja legitimado para tomar essa decisão, pelo menos, não nas formas estabelecidas. Entre outros, uma vez informado remotamente dos fatos consumados, o duque Ernst von Saxe-Gotha-Altenburg reagiu sem demora para expressar sua oposição. Por meio de seu deputado Bode, declarou-se "na impossibilidade de reconhecer Sua Alteza Sereníssima o Grande Superior da Ordem como Grande Mestre Geral de toda a Ordem Maçônica [7]". A ausência de qualquer motivação torna impossível saber o porquê disso. No melhor dos casos, sabemos que diferentes tendências filosóficas, políticas ou religiosas se traduzem entre os congressistas em diferentes desejos quanto à evolução da Ordem. Mas não podemos nos surpreender com a ocorrência desse tipo de incidente.


Willermoz, por sua parte, graças à sua correspondência regular com Brunswick e Hesse-Cassel e à discreta concertação que teve com eles antes da abertura do Convento, conseguiu tornar familiares os pontos de vista que pretendia impor ao longo da assembleia. Durante alguns meses, envolveu com eles o jovem conde Christian-August-Heinrich von Haugwitz, suavizando arestas e fazendo com que o projeto esboçado para os dois homens permitisse superar suas diferenças e trabalhar juntos. Fundador dos Irmãos da Cruz, Haugwitz tem uma inclinação pietista. À primeira vista, seu sistema poderia coincidir com o de Lyon. No entanto, Haugwitz não quis divulgar seus rituais. Após várias solicitações insistentes, Willermoz, lamentando, considerou que as condições não eram favoráveis para a cooperação entre ambos. O próprio Haugwitz rejeitou, então, a oferta de ir a Wilhelmsbad.


Os primeiros temas a debate visam estabelecer que tipo de relações a EOT pode manter com a antiga Ordem. Pode ela reivindicar uma herança, uma filiação? Se for o caso, qual seria a evidência de sua legitimidade? Se, por hipótese, for desejável fazer uma seleção, observando o que toma emprestado ou adiciona à mesma, não é preciso dizer que deveria resultar em outro sistema. Então, como podemos assegurar sua solidez e preservação em benefício das gerações futuras? Que nome deveria adotar e qual organização seria a mais eficaz? À medida que os dias passam, os convidados se questionam sobre as circunstâncias que levaram Hund a trabalhar na Alemanha; sobre o que está provado ou é útil no legado que ele deixou.


No dia 19 de julho, alguém achou pertinente perguntar aos Irmãos mais antigos presentes o que lembravam sobre o que foi dito no momento de sua recepção na Ordem. O que Wurmb tentou fazer cinco anos antes, agora tentam fazer. Talvez isso traga algum indício relevante? Grande decepção: o Irmão mais antigo foi recebido em 1765 e o seguinte em 1766. Ou seja, Johann-Joachim-Christoph Bode e Johann-Friedrich Schwartz. Eles não tinham experiência direta dos primeiros tempos. Lembram-se apenas de que, naquela época, alguns ao seu redor já expressavam dúvidas sobre a legitimidade de Hund, o que não acrescenta nada de novo. No dia seguinte, na quinta sessão, Bode e Schwartz relatam os eventos que antecederam e seguiram o convento de Altenberga, mencionando os relatos de Prangen e Bechtolsheim. No entanto, sua contribuição não ajudou a audiência a se informar melhor.


Dez sessões depois, o duque de Brunswick trouxe a patente de 1751 e propôs que fosse examinada por qualquer um que expressasse seu desejo. O ato se contenta com essa breve anotação, sem mencionar se houve ou não comentários. Provavelmente, não [8]. Em várias comunicações, as alusões aos Stuart são insistentes. Ninguém sabe como interpretá-las. Bode afirma que Jaime II foi, em algum momento, influenciado pelos jesuítas e que a Ordem foi secretamente moldada por eles [9]; o que não o impede de afirmar que a Ordem de São André foi levada a Hamburgo por James Keith em 1735, sob uma patente inglesa [10].


Ao ler as atas sobre uma troca de ideias na qual teriam intervido diversos Irmãos, Charles de Hesse-Cassel se surpreende ao não encontrar nenhuma menção à sua própria intervenção. Por isso, solicita uma nota ou suplemento. Em essência, ele afirma: quando os Cavaleiros Templários encontraram refúgio na Escócia, foram protegidos pela Casa dos Stuart, que assumiu o Grão-Mestrado e o transmitiu aos soberanos sucessivos. "O atual pretendente, Charles Stuart, seria o Grão-Mestre e estaria representado por três Grandes Oficiais: o Grande Conservador, o Grande Administrador e o Grão-Mestre Deputado, que formariam seu Conselho secreto [11]". Sabemos com que cautela devemos encarar esse resumo. Contudo, a existência de um trio de dignitários responsáveis pela direção efetiva, com o príncipe Charles Edward ficando em uma posição mais abstrata ou até distante, faz pensar nos irmãos George e James Keith, assim como no seu primo Robert.


Outro dia, Willermoz se mostra mais eloquente. Em um longo monólogo que retoma as conclusões do Convento das Gálias e as de uma memória escrita em 24 de janeiro de 1781, após o recebimento da terceira circular de Brunswick, ele começa resumindo os clichês habituais de sua época sobre a histórica Ordem do Templo. Nove cavaleiros se uniram para criá-la. Eram pobres. Com o passar dos anos, foram se juntando personagens ilustres. As riquezas surgiram. Conhecimentos de ordem superior também, relacionados aos segredos da natureza e à numerologia. No século XIV, seus sucessores foram vítimas de uma perseguição injusta, inspirada pela inveja e pelo ciúme. No entanto, neste momento, parece que o objetivo primordial da Ordem foi esquecido, que alguns perderam a humildade dos primeiros tempos, que o orgulho se apoderou deles. Tanto é que, apesar do heroísmo de seu Grão-Mestre e de vários de seus oficiais, são considerados perigosos para a ordem pública. O fato de que, na fogueira, Molay previu o castigo iminente de seus algozes, e que esse castigo se cumpriu, também prova que, se não toda a Ordem dos Templários, ao menos sua elite possuía uma ciência profética. Na realidade, nada foi predito no momento da morte; mas vamos fingir que sim.


Para nosso orador, sua herança pode ser concebida sob dois aspectos: o material e o espiritual. Em primeiro lugar, as riquezas que os Templários um dia acumularam se dispersaram, e seria quimérico e até perigoso tentar recuperá-las quatro séculos depois. Ninguém possui um documento legal válido que permita reapossar-se delas, nem sequer avaliá-las. Em segundo lugar, ainda é possível atribuir aos Templários conhecimentos superiores, cuja transmissão teria sido cumprida ao longo das gerações graças a uma elite secreta. É por esse lado que Willermoz o enfoca. "Reclamemos com constância e perseverança nossos direitos sobre esta porção de sua herança".


Suspeitamos que esses conhecimentos aos quais ele se refere não são análogos aos que se podem encontrar em enciclopédias ou tratados científicos. Estes são de outra natureza, até mesmo em outra quantidade. Caso contrário, poderiam ser adquiridos pelos mesmos esforços de erudição que se dedicam em uma escola ou academia. Por não serem expressáveis sob uma forma discursiva, surgem mais da intuição, da iluminação. Para possuí-los, é necessário também conhecer os meios a serem postos em prática. Eles não surgem por si mesmos, espontaneamente; é necessária uma preparação. Willermoz retoma aqui, o muito antigo ponto de vista que defende que certos saberes não se adquirem com a ajuda de uma demonstração racional, mas por uma determinada disposição de espírito, como pode ser visto em Martinez de Pasqually com a busca pela “Coisa”.


Para Willermoz, não há dúvida de que os meios são os símbolos, alegorias, emblemas e ritos com os quais os maçons decoram sua loja. Eles servem como pretextos e mediadores que orientam e guiam a consciência. Hund dizia o mesmo, atribuindo por isso um papel propedêutico aos graus azuis. Assim, não há nada de inédito. Exceto pelo fato de que Willermoz insiste em atribuir aos Templários uma cultura anterior já impregnada desses símbolos, através da qual ele considera que detinham uma cultura maçônica, e que a herança a ser assumida situa-se nesse nível. Os Irmãos de seu tempo podem legitimamente afirmar sua filiação e aspirar a fazer algo ainda melhor. Segundo ele, não foram os Templários que inventaram esses símbolos mediadores, pois antes deles já se encontravam vestígios diversos espalhados em antigas tradições. Contudo, eles souberam reuni-los e dotá-los de significados profundos.


Para ilustrar suas palavras, Willermoz apresenta dois exemplos. Primeiro, ele afirma que, em Saint-Brieuc, na Bretanha, foi descoberta uma antiga construção templária com assentos de pedra dispostos de forma semelhante aos dos maçons em uma loja (os do Venerável e dos dois Vigilantes) e paredes decoradas com pinturas emblemáticas, embora recobertas de gesso. Em segundo lugar, mencionou ter recebido uma carta de um amigo que viajava pelo Tirol italiano e que pôde visitar um convento onde descobriu placas de chumbo, duas das quais contendo inscrições maçônicas: o sol, a lua, as seis estrelas, a borla dentada, uma espada, o ramo de acácia, o malhete, a paleta e uma caveira coroada por uma clepsidra.


Gostaríamos de acreditar nele se citasse suas fontes. Sem dúvida, ele se refere, em primeiro lugar, à capela de Creach, perto de Saint-Brieuc, que de fato foi construída sobre um domínio templário e cujo pavimento é formado por lápides com símbolos normalmente atribuídos a arquitetos e pedreiros. Depois, embora conheça o precioso viajante e testemunha da Itália, ele se abstém de nomeá-lo, alegando que só pode fazê-lo diante do duque de Brunswick e de três comissários de confiança, o que não o favorece em comparação com Hund, com desconhecidos retornando pela janela após terem sido expulsos pela porta.


Ao longo de seu discurso, em um parêntese, recorda que, no início de sua carreira maçônica, por volta de 1752, ele próprio foi introduzido em um grau templário. A Hund e seu sistema ninguém conhecia naquele momento. Isso não nos surpreende. Contudo, Willermoz se abstém de dar qualquer indicação sobre o conteúdo desse grau, nem questiona as circunstâncias de sua aparição nas lojas; limita-se a dizer que seu antecessor o havia aprendido 'de uma antiga tradição cuja origem desconhecia'. Embora o tenha praticado por dez anos — não poucos anos, afinal —, não guardava nenhuma lembrança disso, ainda que confusa? Frequentemente prolixo e preciso, não fornece aqui nenhum indício que permita adivinhar de que grau se trata, além de mencionar que era o quarto na hierarquia. Poderíamos dizer que se tratava do grau de Cavaleiro Eleito? As probabilidades parecem inclinar-se a essa hipótese. Em todo caso, trinta anos depois, ele é um dos poucos convidados de Wilhelmsbad, talvez o único, que pode atestar que, antes de Hund, os franco-maçons já sentiam atração pela Ordem do Templo.


Chegamos a nos perguntar se os aspectos doutrinários, limitados ao espaço maçônico, não lhe são secundários, em comparação com sua argumentação relativa à política, em primeiro lugar, e à religião, em seguida. Ele entende que a Ordem não inspira desconfiança nem nos governos, nem no papado. Na França, o decreto real emitido pelo rei Filipe, o Belo, nunca foi revogado. Em Roma, tampouco foi revogada a Bula de Clemente V. Não se realizou nenhuma reabilitação desde os julgamentos e as sentenças de morte. Parece-lhe que até mesmo uma Ordem reformada, que pretende levantar os antigos estandartes e armaduras, está igualmente exposta aos mesmos reveses.


Percebe sinais de advertência de uma possível perseguição? Como em sua carta de 1779, aos suecos ele não dá nenhum. Desde meados da década de 1730, é verdade que as potências políticas do continente europeu estão alarmadas, assim como os diversos Papas, mas é contra a franco-maçonaria em geral, sem levar em conta os movimentos ou tendências que atuam de dentro. Esses alarmes são intermitentes, às vezes sancionados com o fechamento de lojas, sem, no entanto, suscitar um movimento massivo de opinião que os justifique. Na época do convento, os efetivos da Estrita Observância compreendiam cerca de vinte e seis príncipes alemães. Aparentemente, não lhes parecia fazer parte de uma sociedade subversiva.


Pode-se dizer, especialmente pelos aderentes ao Regime Escocês Retificado, que Wilhelmsbad apresenta, no entanto, a vantagem de facilitar a elaboração de um documento oficial sancionando de uma vez por todas a renúncia a toda forma de templarismo. Os próprios deputados teriam admitido a necessidade de silenciar as vozes cada vez mais escassas em suas fileiras que pediam a continuidade da antiga Ordem. Tal seria o Ato de Renúncia que, estabelecido em 21 de agosto de 1782, marcaria a dissolução sem possibilidade de recurso da Estrita Observância. E, como resultado, consagraria o triunfo do sistema dos Cavaleiros Beneficentes da Cidade Santa.


O convento funciona como uma assembleia constituinte que se ocupa da eleição de um novo Grão-Mestre Geral, até então limitado exclusivamente à presidência das Lojas escocesas, e que precisava resolver a questão preliminar de sua própria legitimidade. A referência aos primeiros Templários ainda é mantida. Chamá-los de Cavaleiros da Cidade Santa é um artifício linguístico que sublinha os primeiros tempos da Ordem, quando os ‘pobres companheiros de combate de Cristo e do Templo’ se dedicavam essencialmente à caridade sob a tutela dos canônicos do Santo Sepulcro. Este período é anterior ao momento em que a Ordem afirma sua vocação militar e obtém suas regras de Bernard de Clairvaux. Como seria preferível esta à segunda, e como podem os CBCS pretender garantir sua continuidade?


Pareceria que esses ‘pobres companheiros’ possuíam segredos maçônicos e os cultivavam muito melhor do que os soldados que os seguiram. Este é o único patrimônio assumido no século XVIII. São, ao mesmo tempo, modelos de sensatez, lucidez e alta ciência. Intrinsecamente, o objetivo é nobre; mas o vínculo histórico entre eles e os amigos de Willermoz certamente não está melhor demonstrado do que o hipotético vínculo entre a Cavalaria da Observância e a milícia do Templo. Onde os reformadores de Wilhelmsbad exigem provas documentais de Hund, eles próprios se abstêm de exigi-las. Jean de Türckheim é quem segura a pena desse ato solene, que completa com um lirismo fácil de encontrar na maioria das publicações apologéticas de seu tempo, quaisquer que sejam as obediências.


"Zelosos de despertar nos corações de todos os que desejam pertencer ao amor pela religião e pelas virtudes mais ativas, nos orgulhamos de considerar que os preconceitos contra nossa respeitável Ordem, já por si enfraquecidos, logo serão destruídos, e que os soberanos nos verão como uma elite de cidadãos virtuosos, cuja união pode gerar o maior bem e oferecer assistência efetiva à família humana" [12].


O discurso de encerramento do convento é pronunciado pelo próprio Willermoz. Felicitando-se pelo fato de que tenha ocorrido uma mudança radical mediante o rejeito de um "sistema quimérico de orgulho e ostentação no restabelecimento da Ordem dos Templários", considerou que se havia alcançado um retorno aos princípios primitivos com perspicácia. Restabeleceram-se a unidade e a harmonia entre os irmãos. Assim, acredita-se que um futuro brilhante está se gestando. O novo sistema se assenta sobre bases sólidas.


Elogia o resultado do trabalho coletivo, mas atribui a si mesmo o protagonismo da mudança realizada, personalizando tanto suas palavras que se pode perguntar se não estaria incorrendo no perigoso exercício de querer dar mais brilho à sua imagem do que à do novo Grão-Mestre. Cada uma de suas frases revela a mesma ambiguidade percebida na primeira circular do duque de Brunswick. Além do convento, sua ambição última é contribuir para uma reforma de toda a maçonaria, de modo que ela seja quase reconhecida como de utilidade pública em todos os países. Tendo a beneficência como objetivo principal, só pode suscitar um movimento geral de simpatia. Em seguida, defende a unificação dos regimes e a harmonização dos usos. Esse ideal foi bastante compartilhado em sua época por outros promotores de sistemas. No entanto, todos se proclamam os mais capacitados para alcançá-lo e se esforçam para desvalorizar os demais. Daí, inevitavelmente, os efeitos contrários aos esperados. Quanto mais os indivíduos se distanciam de seus vizinhos apelando à universalidade, menos possibilidades têm de alcançá-la. Embora pretenda estar acima dessas vaidades ciumentas, Willermoz não escapa desse defeito.


Sua autossatisfação não dura muito. Algumas semanas após o convento, de volta a Lyon, ele se queixa amargamente da má reputação que lhe haviam atribuído em Paris o marquês François-Marie de Chefdebien e o conde Franz-Josef von Kollowrat. Estreitamente ligados a Savalette de Langes, zombavam dele em termos violentos. Seu amigo Friedrich Tiéman von Berend presenciou isso e não deixou de informá-lo. Quase imediatamente, Willermoz levou o assunto ao Príncipe de Hesse. Torna-se, então, instrutiva a comparação que pode ser feita entre sua carta e a de Tiéman.


"Tudo aqui respira guerra e vingança – escreve Tiéman a Willermoz em outubro –. Dois dos deputados do Convento] Geral estando aqui, adicionaram mais lenha à fogueira. Eles e o amigo de Langes percorrem a cidade de ponta a ponta para desprezá-lo, culpando-o pelo mau resultado do convento. Dizem que: «Vocês dominaram lá, apoderaram-se das mentes de dois pobres príncipes, um dos quais era fraco e o outro crédulo. Vocês os admitiram como membros da Grande Profissão para assegurar seus votos; vociferaram e vociferaram novamente, em plena assembleia, contra todos os que ousaram se opor. Contradizemos isso; vimos suas cartas para Estrasburgo nas quais admite que apenas de você vem a Grande Profissão. Ainda que afirme que os materiais foram trazidos da Alemanha. Disse isso apenas porque ninguém é profeta em sua própria terra. Enfim, sua soberba, sua má-fé, seu desejo de domínio revoltaram a todos, e vamos desfazer tudo o que foi decidido no convento». Não terminaria nunca se lhes contasse novamente tudo o que ouvi no primeiro dia. Quando me mantive em silêncio diante de todas essas invectivas (porque defendê-lo estaria além de minhas forças ao tentar conter o coração de homens exaltados), o amigo de L. me disse em plena assembleia que eu era um willermozista e que já não era nada. Quis mostrar-lhes que você sempre me fez o bem. Gritaram-me, crucifica-o, crucifica-o" [13].


Em novembro, Willermoz transmite esses ecos a Hesse. Ferido e indignado, afirma que suas intenções sempre foram puras. Portanto, seria pura calúnia sobrecarregá-lo com epítetos incriminatórios.


"Pintam-me com as cores mais horríveis. Meu orgulho e minha má-fé teriam revoltado contra mim todo o convento. Gritei e esbravejei em plena assembleia contra qualquer um que ousasse me contradizer. Abusei vergonhosamente da confiança de dois príncipes para que minhas loucuras fossem adotadas. Mas agora, que todos recuperaram sua liberdade, vamos romper tudo o que foi decidido no convento. Alguns amigos tentaram me defender, mas à primeira palavra, gritaram-lhes: 'Crucifica-o! Crucifica-o!'" [14]


Em seu resumo, Willermoz ignora a dupla acusação principal: de um lado, a de ter inventado a Grande Profissão e apresentá-la como uma prática antiga; de outro, a de concedê-la a alguns poucos contemporâneos escolhidos para garantir apoio à sua empreitada reformista. Além das críticas a seu temperamento, é nesse ponto que reside sua maior vulnerabilidade. Suas artimanhas e estratégias seriam demasiado grosseiras para que o trabalho por ele realizado pudesse ser considerado genuinamente produtivo. Embora não tenha hesitado em confessar ao próprio Hesse-Cassel sua ousadia na criação do último grau iniciático no centro do sistema de Lyon, procurou manipular o equilíbrio de poder entre os participantes do convento de forma que fosse vantajosa para ele.


Hesse-Cassel não demonstra muita compreensão. Pelo contrário, ele mesmo expressa sérias reservas quanto às habilidades de Willermoz. Certamente o protegeu; certamente permitiu que ele planejasse as sessões do convento e as conduzisse como desejasse; certamente recebeu os graus secretos dos Cohëns; mas está decepcionado. Muitas promessas, poucos resultados. Segundo o barão de Plessen, este príncipe considera Haugwitz e Wächter muito superiores [15]. Eles possuiriam uma ciência mais elevada. Ao ler os arquivos de 1782-1783, surpreendem-nos as discrepâncias entre os discursos que o lionês fez sobre si mesmo e aqueles de amigos mais ou menos próximos, que ele acreditava ter conquistado, mas que não demonstraram tal lealdade.


O mesmo Louis-Claude de Saint-Martin, que anteriormente fora secretário de Pasqually, critica fortemente a Willermoz por ter abusado da doutrina de seu chefe comum e se comprometido na Alemanha a promover um sistema no qual a letra (o código, as regras) prevalece exageradamente sobre o espírito. Em Paris, o autor de Os Erros e a Verdade frequenta Tiéman, Savalette de Langes, Chefdebien e Kollowrat. Escuta os ataques de uns e as defesas de outros. Embora não duvide da honestidade de Willermoz, considera que, às vezes, ele é torpe, especialmente quando tenta ensinar aquilo que ele mesmo não tem certeza de dominar [16].


[Nota do Blog Primeiro Discípulo: A tensão entre Jean-Baptiste Willermoz e Louis-Claude de Saint-Martin representa não apenas uma divergência de perspectivas, mas um verdadeiro conflito de princípios e métodos que, em muitos aspectos, coloca as duas figuras em polos quase irreconciliáveis no que diz respeito à herança do guru Cohen, Martinez de Pasqually. Embora ambos tenham estado sob a tutela do mesmo mestre e, inicialmente, das mesmas premissas doutrinárias, a ruptura entre suas visões escancara um antagonismo que transcende o pessoal e revela duas abordagens diametralmente opostas em relação à espiritualidade, à doutrina e à prática maçônica.


Willermoz, de temperamento sistemático, desejoso de notoriedade na sociedade maçônica e portador de uma fidelidade obstinada à ideia de ordem e estrutura, dedicou sua vida a cristalizar e depurar os ensinamentos de Pasqually em um corpo doutrinário sólido e funcional, que pudesse ser harmonizado com a ortodoxia cristã. Sua missão estava enraizada em uma crença firme na necessidade de um sistema bem codificado, no qual o rito, o simbolismo e a forma se tornassem canais seguros para a ascensão espiritual e a reintegração do homem com Deus. O Rito Escocês Retificado é testemunho desse esforço: um sistema altamente estruturado, que combina espiritualidade, ritualística e moral cristã.


Entretanto, para Saint-Martin, essa visão não passava de uma traição ao espírito original da doutrina de Pasqually. O "Filósofo Desconhecido" (muitas aspas na palavra filósofo aqui utilizada) via na sistematização de Willermoz uma redução da profundidade espiritual a uma mera formalidade ritualística. Em sua crítica implacável, Saint-Martin acusava Willermoz de abusar da doutrina de Pasqually, adulterando-a com uma ênfase excessiva na "letra" – isto é, na codificação, nas regras e nos rituais – em detrimento do "espírito", que ele via como a essência mística e transcendente da mensagem de seu mestre. Para Saint-Martin, a obra de Willermoz era, no fundo, uma caricatura desprovida de verdadeira espiritualidade, uma tentativa torpe de ensinar aquilo que Willermoz, segundo Saint-Martin, nunca chegara a compreender em totalidade. Sua crítica não era sutil, mas contundente e ácida. Ele considerava o esforço de Willermoz na Alemanha – onde este buscou expandir e consolidar o sistema do RER – um exemplo da prepotência de alguém que se compromete a ensinar aquilo que não domina e que mal conhece. Para Saint-Martin, a insistência de Willermoz em estruturar a doutrina de Pasqually em uma moldura rígida e ritualizada era não apenas um equívoco, mas um ato de mutilação espiritual. O espírito místico que Saint-Martin tanto prezava era, segundo ele, sufocado por essa obsessão de Willermoz com a forma e a organização.


Essa oposição é particularmente relevante porque muitos irmãos do Rito Escocês Retificado, até hoje, veneram Saint-Martin como um modelo de espiritualidade, a ponto de batizarem lojas com seu nome, sem compreenderem a profundidade de sua aversão e seu desejo de afastamento do sistema Willermoziano. É, no mínimo, paradoxal que Saint-Martin seja celebrado dentro de um rito que ele criticava abertamente, acusando-o de ser excessivamente formalista e desviado do verdadeiro espírito da doutrina de Pasqually.


O antagonismo entre Saint-Martin e Willermoz é, portanto, um confronto entre dois ideais inconciliáveis. De um lado, temos Willermoz, com sua crença no poder dos ritos, da forma e da organização, como ferramentas indispensáveis para a elevação espiritual. De outro, Saint-Martin, que rejeitava tudo isso como um entrave ao verdadeiro caminho espiritual, que ele via como uma busca interior, mística e individual. Essa divergência é tão radical que coloca em xeque a coerência daqueles que, hoje, tentam conciliar as duas figuras como se fossem complementares. Na realidade, Saint-Martin e Willermoz não apenas divergiam, mas representavam visões opostas do que significa a espiritualidade cohen (se de fato significava alguma coisa) e como ela deve ser vivida e transmitida.


Ademais, a crítica de Saint-Martin à honestidade intelectual de Willermoz é particularmente incisiva. Ele acusa Willermoz de ser torpe, alguém que se aventura a ensinar aquilo que não compreende plenamente. Essa acusação não é apenas uma crítica ao método de Willermoz, mas um ataque à sua autoridade como líder espiritual e doutrinário. Saint-Martin coloca em dúvida a própria capacidade de Willermoz de ser fiel à herança de Pasqually, insinuando que ele a distorceu ao ponto de comprometê-la.


Por outro lado, Willermoz, fiel à sua visão, provavelmente via em Saint-Martin um místico desorganizado (notem que aqui, especulamos), alguém incapaz de compreender a importância de um sistema estruturado para a transmissão e preservação de uma doutrina espiritual. Para Willermoz, a insistência de Saint-Martin em rejeitar os ritos e a codificação era, talvez, uma forma de traição ao legado de Pasqually, que ele tanto se esforçava para preservar e adaptar ao cristianismo.


Esse embate, longe de ser uma simples divergência de opiniões, revela uma tensão fundamental no coração do Rito Escocês Retificado e de sua herança martinezista. Willermoz e Saint-Martin não terminaram como aliados, mas como antagonistas que representam duas visões irreconciliáveis da espiritualidade. Enquanto Willermoz buscava construir um sistema que unisse tradição cristã e espiritualidade iniciática, Saint-Martin via nessa tentativa um desvio que sufocava o espírito sob o peso da forma. Essa tensão permanece como um desafio para os adeptos do RER, que precisam escolher (ao menos quando se dão a um processo de raciocínio guiado pela lógica) entre duas figuras cuja relação é marcada mais pelo conflito do que pela harmonia.]


Outro ataque muito vigoroso provém de Jean-Pierre-Louis Beyerlé, Prefeito de Lorena, visitador do priorado de Austrásia, que publica um comentário virulento sobre as conclusões adotadas em Wilhelmsbad. Além disso, é esse comentário o que a literatura lembra para contrapor à prosa willermoziana. Beyerlé estima que o convento não passava de uma diversão para crianças, pela falta de um método rigoroso para conduzir os debates. Willermoz se mostrou versátil, capaz de afirmar em um dia o que negava no dia anterior. Queria fazer triunfar suas opiniões. Acima de tudo, avançava disfarçado para impor a doutrina de Pasqually, mas ajustada à sua maneira. Isso é demonstrado pelo fato de ele ter comunicado os graus relativos à GP [Grande Profissão] a Ferdinand de Brunswick e Charles de Hesse. 'É por essa razão que os escolheu como Juízes e que, em consequência, as cartas do H. ab Eremo estavam relacionadas a esse sistema' [17]. Defendeu vigorosamente o abandono da Observância Templária de Hund, para servir melhor à sua própria causa.


[Nota do Blog Primeiro Discípulo: O comentário de Jean-Pierre-Louis Beyerlé contra a postura de Willermoz em Wilhelmsbad destaca várias falhas críticas no caráter e na metodologia do líder do Rito Escocês Retificado. Beyerlé o acusa de falta de consistência doutrinária, evidenciada pela sua flexibilidade perigosa, onde ele afirmava um princípio em um dia e o negava no outro. Essa versatilidade não era vista como uma abertura ao debate, mas como uma manipulação para impor suas próprias opiniões.


A acusação mais contundente, entretanto, é a de que Willermoz, sob o disfarce da tradição martinezista, buscava distorcer e adaptar a doutrina de Pasqually de maneira conveniente para seus próprios interesses. Sua ação de comunicar os graus da Grande Profissão a Ferdinand de Brunswick e Charles de Hesse é um claro exemplo dessa manipulação, utilizando esses nomes de prestígio para consolidar uma versão do Rito que se alinhava mais à sua visão pessoal do que aos ensinamentos originais.


Ademais, a crítica de Beyerlé sobre a falta de rigor em Wilhelmsbad, a ponto de considerar o convento uma "diversão para crianças", revela uma percepção da metodologia de Willermoz como falha e imatura, incapaz de sustentar um debate sério e produtivo. A decisão de abandonar a Observância Templária de Hund em favor de uma agenda mais pessoal reflete a tendência de Willermoz de priorizar sua própria ascensão e controle sobre o movimento, em detrimento da verdadeira integridade do rito e da tradição.]


A análise poderia ser ampliada para muitos outros pontos. Fiquemos com aquele que fascina há muito tempo os detratores do barão de Hund. Para eles, os Superiores Desconhecidos nunca teriam sido mais que fantasias. Sabendo que Willermoz também invoca outros, que só aceitariam ensinar sua alta ciência a uma minoria escolhida de Irmãos supostamente mais qualificados que os demais para recebê-la, sua posição não é muito mais defensável. Em Hund, os Superiores permaneceram desconhecidos devido à política; para Willermoz, eles se devem a preconceitos intelectuais agravados pelo disfarce sobre a origem dos Professes. Isso seria realmente melhor? Vemos, várias vezes durante o convento, oradores que fazem uma pausa enigmática, para insinuar que possuem segredos que não podem ser comunicados aos seus próprios Irmãos, senão apenas a alguns poucos superiores, em um comitê muito restrito.


Inclusive o conteúdo dos rituais é problemático. Quando Bode e Beyerlé se surpreendem de que a redação proposta por Willermoz para os três graus simbólicos lhes pareça ininteligível, quando lamentam que o ritual do Aprendiz esteja "sobrecarregado de emblemas e solenidades" que não conhecem [18], querem acreditar que aqueles que trabalharam na revisão estão muito instruídos, mas isso não impede que eles forneçam explicações verbalmente, ainda que seja apenas para poder responder eles mesmos às perguntas que lhes escapam e que não deixariam de inquietar os Irmãos de suas respectivas lojas. Adiando para mais tarde possíveis exegeses, Willermoz responde que se inspirou em um ritual muito antigo em sua posse. Em qual?


O único indício que temos em uma ata é que o título da versão proposta por ele é o de Ritual de Aprendiz dos Cavaleiros Maçons retificados. Seu auditório reagiu dizendo que o título de Cavaleiro deve ser reservado para o último grau e não pode ser atribuído desde o primeiro. Isso é lógico? Aparentemente sim. Submetida a questão à votação, a maioria decidiu eliminar a palavra do manuscrito. Exceto que, como é sabido, os Irmãos de Viena têm uma longa tradição de usá-la em cada recepção de neófitos. Sabemos também que o primeiro registro da Trois Colonnes de Kittlitz dá testemunho dessa prática. Deduímos que, em Wilhelmsbad, Willermoz manuseia sem dúvida arquivos antigos, mas desconhece o contexto de sua produção, razão pela qual não pode esclarecer a ninguém sobre o que conserva ou rejeita deles.


De qualquer forma, não percamos de vista o fio jacobita. Matizar, reformar, retificar ou revisar a referência templária não altera em nada o fato principal de que os maçons do exílio são os criadores dos graus cavaleirescos. É por isso que, após Wilhelmsbad, os suecos, a quem a Ata de renúncia não impressionou muito, persistem na sua vontade de se dirigir ao príncipe Charles Edward para obter dele um testemunho que lhes permita aprofundar suas investigações no passado.


Melhor ainda, apesar das irritações que se seguiram às suas escapadas florentinas de 1778, os alemães voltaram a colocar o barão de Wächter em cena. Incomodados pelo renovado interesse demonstrado pelos suecos, desejosos de superá-los se, finalmente, surgisse uma verdade de última hora, agem como se as conclusões do convento fossem insignificantes. Não as adotam. Em Wilhelmsbad, durante os debates, impugnaram o título de Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa, impondo, afinal, outro mais curto, o de Cavaleiros Benfeitores. Isso não é tudo: apesar das garantias dadas a Willermoz, Brunswick e Hesse-Cassel não tentam anunciá-lo em suas lojas, exceto discretamente, por dois motivos. O primeiro é que estão longe de ver que, com a reforma, seu prestígio na Alemanha aumente; ao contrário, diminui. O segundo é que algumas lojas já deram um passo à frente, posicionando-se sob novos estandartes, como é o caso dos Iluminados da Baviera.


Notas:


1 - BNU Estrasburgo, manuscrito 139, f° 263 v°. Circular do duque Ferdinand de Brunswick, 8 de outubro de 1779.


2 - Ibid. manuscrito 139, f° 267 r°. Circular do duque Ferdinand de Brunswick, Gottorp, 1º de novembro de 1779.


3 - Ibid. fo 268.


4 - Ibid. f° 269. Circular do duque Ferdinand de Brunswick, Brunswick, 19 de setembro de 1779.


5 - DAFO, F11A1972. François-Henri de Virieu, Paris, a Carlos de Hesse-Cassel, 14 de novembro de 1780.


6 - Circular de convite ao Convento Geral, 18 de junho de 1781. - REINALTER 2021: II, 51.


7 - Protocolo 167, declaração do duque Ernst de Saxe-Gotha, lida em 28 de agosto de 1782. - REINALTER 2018: I, 345.


8 - Sessão de 29 de Julho


9 - Sessão de 23 de Julho


10 - ibd


11 - Sessão de 24 de Julho


12 - Ata de renúncia, 21 de agosto de 1782. - REINALTER 2018: I, 316


13 - BMLYON, fundo Willermoz. Manuscrito 5865, documento 64. Friedrich Tiéman von Berend, Paris, a Jean-Baptiste Willermoz, Lyon, 15 de outubro de 1782.


14 - DAFO, FI-10 25. Jean-Baptiste Willermoz, Lyon, a Carlos de Hesse-Cassel, 1º de novembro de 1782.


15 - BMLYON, manuscrito 5425, documento 22. Carl-Adolf von Plessen, Hamburgo, a Jean-Baptiste Willermoz, Lyon, 12 de fevereiro de 1783.


«O príncipe não agirá com determinação, pois está convencido de que os conhecimentos do irmão Ceraso [Wächter] e de Haugwitz são superiores aos dele. Também não deixará de dizer aos outros as mesmas coisas que me disse, e essas contínuas incertezas que ele [Willermoz] demonstra não podem deixar de causar um dano infinito ao bem geral».


16 - PAPUS, 1988: 161-166.


17 - BEYERLÉ 1782: 125-126.


18 - Sessão 15, 14 de agosto de 1782. – REINALTER 2018: I, 71.


Comentários


Os comentários foram desativados.
bottom of page